segunda-feira, 28 de abril de 2008

Genro de ouro

Hoje é o dia da sogra. A melhor piada sobre o tema é a daquele governador que não enxerga nada de errado em levar a mãe de sua esposa numa viagem oficial, e ainda reclama de perseguição e deboche.
De tão boa a piada valeu R$ 400.000,00. Quase metade do prêmio do Big Brother da REDE GLOBO, nada mal, hein?
Mas a sério agora, Cid Gomes estaria ao lado do irmão Ciro Gomes, deputado federal pelo PSB-Ce, construindo o que eles chamam de Nova Hegemonia Intelecto-Moral Brasileira. Lembrei-me daquela pilhéria sobre o Sacro-Império Romano Germânico, Não era sacro, nem império, nem Romano e muito menos Germânico.

domingo, 27 de abril de 2008

You got me begging you for mercy

A Inglaterra é um país sui generis. Pense no surgimento dos Punks que começou nas ilhas. O movimento defendia o "Do Yourself", mas observando mais de perto via-se que isto não significava faça de qualquer jeito. Os Sex Pistols eram anarquistas sim, mas com um empresário espertíssimo para o markenting, Malcom Mclaren, e com uma estilista oficial que milimetricamente escolhia onde estariam os rasgões e quanto desgastadas estariam as roupas, Viviane Westwood. Na superfície pregava o desleixo com músicas de três minutos com dois acordes, mas gerou um dos grupos mais sofisticados musicalmente que já existiram na história do Rock, The Clash, que no seu auge produziu um álbum triplo: Sandinista. Afora que Joe Strummer e Mick Jones são dois exemplos de roqueiros articulados.
Um resenhista sem criatividade começaria neste ponto a si perguntar sobre as propriedades mágicas da água que os ingleses bebem, como não é o caso entrego o ouro, primorosa educação (e claro, também o sistema de saúde universal ajuda um pouco) dedicado aos súditos de Sua Majestade. Até temos músicos que produzem música para descerebrados como o Iron Maiden mas gente como Bruce Dickson tem impecáveis credenciais acadêmicas.
São raros os casos em que os músicos britânicos não têm educação superior, não necessariamente graduação em música, caso dos integrantes do Queen, mas mesmo os "excluídos" há gente como David Bowie. Recentemente o guitarrista do Radiohead assombrou o mundo ao compor a impressionante trilha sonora do filme Sangue Negro, Jonny Greenwood estudou composição no vestuto Oxford Brookes University e há quatro anos é o compositor residente da BBC Concert Orchestra, na supracitada trilha usou com autoridade marcas da música erudita como atonalismo e dissonância. Antes que deixe batido, é o país do Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin.
O reflexo disso é uma imprensa especializada de primeira, não apenas no jornalões mais revistas segmentadas. Pense em quantas revistas de circulação nacional existem aqui no Brasil, de cabeça só lembro de duas: Bizz (sempre em vias de cancelamento) e Rolling Stone Brasil, mensais e de tiragem pífia. Na velha Albion essas publicações são semanais, vendem muito, bem escritas, e são influentes, caso do New Musical Express. Na verdade a disputa é tão acirrada que é voraz a caçada para o nova sensação, o hype no jargão da crítica. Existe muito exagero na consagração, como no caso aos Libertines, mas não nos méritos de quem é erigido: Franz Ferdinand, Klaxons, Arctic Monkeys.
A nova febre são cantoras de acento soul, que pipocam numa velocidade alucinante. É até engraçado pensar que Joss Stone é uma veterana com 3 discos na praça, e como tal, já tem que se preocupar em guinadas e reinvenções para manter-se em evidência. Causa estranheza que a outrora gatinha do Soul, que cantava descalça com aqueles vestidões floridos levementes hippies, surja agora de saltos altíssimos, piercing na barriga, sempre à mostra, cabelo tingido de vermelho. Mas é prudente maneirar na patrulha, Stone é jovem, linda e com dinheiro e Introducing Joss Stone tem boas faixas.
Na segunda onda estavam Lily Allen e a maravilhosa (e perdida) Amy Winehouse, que tomara Deus que o próximo disco da última não seja póstumo.
Agora na nova leva é a vez de Kate Nash, Adele e Duffy. Incrível é que todas são muito jovens, Adele tem só dezenove anos. Falando sobre Kate Nash o grande crítico da New Yorker, Sasha Frere-Jones aponta que estourou cedo demais e como suas letras são sempre confessionais é um problema, uma garota tem um universo muito restrito, o que cansa a audição de um disco ou show inteiro (para quem lê em inglês uma dica é ler seu blog no site da revista).
Nash estorou com a música Foundations:


O marcante nela é seu canto quase falado e estilo metralhadora, ouça aqui a cover de Flourescent Adolescent dos Arctic Monkeys:


Já Adele, ganhou a (injusta) pecha de clone de Amy Winehouse. Hehe! Ok vamos admitir esta hipótese por um momento. Ele já teria o mérito de copiar aquilo que já é bom, e consegue um grande resultado. Ficaria com a opinião do personagem de Orson Welles no filme Verdades e Mentiras defendendo que uma boa falsificação de uma obra de arte é tão válida quanto a original.
Esta é minha música favorita dela, Could Shoulder:


Há quem diga que essas cantoras são "inventadas" por produtores como Mark Ronson. Bem seguindo na linha que expus acima, se for isso mesmo, parabéns então a esses caras. São grandes ilusionistas e entregam entretenimento de primeira. Bem diferente dos picaretas aqui do Brasil como Rick Bonadio, que lançou os trambiques Rouge e CPM22.
Chegamos na minha nova diva, Duffy. Uma jovem galesa de 23 anos. Ouça a faixa título de seu CD, Rockferry:


Ela dominou as paradas com a fusão do soul e um quê de country de Mercy:

Aqui você pode ver o clip americano, prefiro o que postei acima veja os dois e faça sua escolha.
Agora a música que me fez minha sedição incondicional é Delayed Devotion. Sei até o momento exato. Nos versos: When I drop you boy/ You'll need another toy/ One that won't stand up for herself/ When I knock you down. Irresistível!! (recomendo que busque as letras de todos os vídeos, são muito boas, sem exceção)


Agora o que é bizarro é que pensando na letra de Delayed Devotion me dei conta que tem o mesmo mote de Baba Baby de Kelly Key. Hehe! Com a diferença crucial que Duffy canta de verdade, e sua música é linda.
Dá ou não dá uma inveja danada dos ingleses, eles: Joss Stone, Amy Winehouse, Kate Nash, Adele, Duffy. Nós Wanessa Camargo, Sandy, Liah, Marjoire Estiano, Perlla...
É impressão minha ou estou ouvindo: "You got me begging you for mercy".

Trívia

Que tal um teste nerd? Tente identificar as silhuetas dos personagens de desenhos animados que segue abaixo.
Existem algumas barbadas, mas reconhecer todos é feito para entrar no Hall da Fama dos Nerds. Na minha vez deixei passar quatro, dois deles até me eram familiares, mas olímpicamente descartei na contagem final. Os outros dois. nunca tinha ouvido falar antes.

Clique aqui, para ter uma imagem ampliada.

De volta a ação


Há duas maneiras de explicar a ausência de postagens nos últimos meses.
A polida: por razões pessoais decidi tirar o mês de março para um sabático, o problema é que o tempo passou e continuei sem escrever. É exagerado dizer que passei por um bloqueio criativo, mas realmente não me sentia estimulado a voltar ao "batente". Escrever ainda é um martírio, me chateia a quantidade de texto que jogo fora ou as inúmeras revisões que me imponho antes da versão final, mas sem mais choradeiras tenho muito orgulho de algumas destas resenhas, como aquela do comercial com Martin Scorcese.
Matutava um ou outro post avulso, mas ia deixando passar. Não é intenção do blog atulhar um monte de mensagens do calibre "Pessoal olha isso q é mucho LOCO!!!". Em vez disso criar um espaço de reflexão, desafeto de qualquer pedantismo, e divulgação de uma ou outra coisa que me comova, para com sorte, esse sentimento atinja meu leitor.
Confesso que tive uma pequena satisfação nesse sentido quando um dos meus diletos amigos, com sua generosidade habitual me intimou a retomar a escrever. Uma pequena vitória então! E eis que me encontro aqui de madrugada teclando com umas três idéias rodando a cabeça, se o sono não chegar antes consigo desová-las. Não vou prometer que será a última vez, só continuar enquanto uma nova estiagem não chega.
A segunda explicação, [módulo Gregory House ON]: Cara isto aqui é para diversão, se nem eu consigo isso, por corolário você também não conseguirá, não acha, ou você é retardado mesmo? [módulo Gregory House OFF]
Boa noite.

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Now playing: Cranberries - I Still Do
via FoxyTunes

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Diálogos truncados.

No começo era uma bobagem que não valeria o esforço que levo para escrever o mais simples do posts, mas como o assunto rendeu, a situação vale um comentário.
Zeca Camargo até um tempo atrás tinha um dos melhores textos do jornalismo cultural. Hoje, o homem está envelhecendo mal, é duro ter que aguentar afetações como "mas quero só assinalar que é nossa obrigação, como seres pensantes, venerar qualquer coisa que venha do Radiohead - ou um de seus membros". Ele está falando da trilha sonora do filme Sangue Negro assinada pelo guitarrista do grupo, Jonny Greenwood, que registre-se acho genial, agora não embarco nesses chiliques. Contudo até uns dez anos atrás, suas resenhas não apenas eram divertidas quanto atualíssimas. Graças a Camargo é que li pela primeira vez de uma certa banda inglesa que lançava um disco homônimo, um tal de Portishead. Outra comentando sobre o álbum Elegantly Wasted do INXS, disse que mal podia esperar pelos próximos dois CD's do grupo, mas especificamente o 2º, afinal se aquele era uma cópia descarada de The Joshua Tree do U2, era de se esperar que chupariam em seguida o Rattle and Hum e Achtung Baby. Suas coberturas do Free Jazz acredito que do ano de 1997, o que teve Neneh Cherry e Jamiroquai, e de uma revista francesa sobre os 100 melhores singles de todos os tempos, são influências recorrentes no estilo almejado pelo signatário do blog.
Pena que a GLOBO desperdice o talento do sujeito com entrevistas ridiculamente pomposas como a de Sandy e Júnior, discutindo esse grande abalo da música pop que significou o rompimento da dupla (morri de rir com os lentos travellings, e cortes para close-up, num cenário de um palco vazio imenso, na tentativa de dar alguma gravidade solene), ou agora com essa série de matérias sobre o Japão. Se eu tivesse a chance de viajar para um país fascinante como o Japão não titubearia, agora pensar que rende interesse é outra história (numa sondagem com conhecidos a extensa maioria qualifica a reportagem como um porre).
Finda a introdução.
Na semana passada, Zeca Camargo soltou a pérola em seu blog no G1 sobre a mini-série Queridos Amigos: fui só eu que tive a impressão que minha TV aberta tinha, de repente, se transformado numa HBO?
Hehe! E Paulo Coelho também pode, de repente, se transformar em Machado de Assis (que alias também esta hospedado no G1).
Uma afirmação sem-graça, merece um comentário sem graça, cortei e colei o que ele tinha escrito e acrescentei "menos garoto, menos...".
Estranhei que o moderador do blog cortou meu post, que era obviamente gaiato. Não ofensivo. Mas é do jogo, existe o aviso que os comentários são avaliados e podem ser limados, e não recrimino, sendo ele uma persona pública, imagino a quantidade de chateação que tem que aturar. Achei desproporcional, entretanto, estes são meus critérios, poderia questionar os deles se fossem públicos, não os são, então como disse antes, aceito a retirada.
Se parasse aqui, teria apenas uma história para contar a amigos. Só que muita gente implicou com a frase, e como confessa amigos e conhecidos diletos de Zeca Camargo que acabou escrevendo um novo post, na tentativa de explicar o que queria dizer.
Se antes era um acidente de carro, agora temos trens colidindo.
Então o que Queridos Amigos tem em comum com as séries da HBO é que um personagem fala descaradamente mal da TV no programa. Menos que uma revolução isto mostra o atraso da nossa televisão. Um personagem de ficção pode falar mal da TV, ser machista, pedófilo, defender a castração de ciganos e judeus, viciado em substância ilícitas, o escambaú (e antes que alguém levante a lebre, não é que acho reprovável alguém reclamar da TV, apenas quero mostrar que a dramaturgia pode tratar qualquer tema, inclusive os repulsivos). O que não pode é ser mal escrito, coisa que ele admite que está ocorrendo, quando malha os diálogos melosos do programa.
Talvez o espanto venha porque a mesma emissora atualmente vem "recomendando" seus funcionários, inclusive os do jornalismo, a falar recorde, em vez do gramaticalmente correto recorde, apenas pela pusilaminidade de evitar qualquer vinculação com a TV RECORD, que vem crescendo de audiência, ainda que ainda nade de braçada da concorrência, a GLOBO passa por constragimentos como quando é ultrapassada na audiência nas (e só nas) noites de quarta-feira, inclusive quando transmitia um jogo do Corinthians. Não pode-se esquecer que sempre que falam sobre trabalhos pregressos os "colaboradores" (como odeio essa palavra usada neste sentido!) sempre se referem à "outras emissoras", raramente citando-as nominalmente. Já vi casos patéticos em que uma atriz numa entrevista falava de sua estréia era para todos os efeitos foi quando estreou na emissora carioca, desprezando suas atuações no SBT, que tivesse vergonha do desempenho (e bem podia ter mesmo, era um lixo, a atuação, personagem e novela), é outra história, ignorar o passado é vergonhoso.
Uma breve digressão, o que aconteceu com o Vídeo Show, pelo ao menos até a época que Márcio Garcia substituiu Miguel Falabella, era muito bom, e não falava apenas de televisão, cobria cinema, e até quadrinhos, lembro que assistiu uma matéria sobre a produção da obra-prima Marvels de Kurt Busiek e Alex Ross. Hoje não passa de um release vagabundo sobre as atrações da GLOBO (além de uma justificativa para o salário de Angélica e Fernanda Lima), não serve nem como institucional já que duvido que uma empresa queira ter sua imagem vinculada a um banana como André Marques, o eterno Mocotó de Malhação.
Seria ótimo que a TV tratasse além de si mesma, mas a própria mídia em geral, como a concessões para emissoras da parte da GLOBO, por políticos como a família Sarney no Maranhão, e a Magalhães na Bahia, ou num plano maior a aquisição de grupos midiáticos por igrejas como a Católica e seitas como a Universal do Reino de Deus. Incluindo a recente ofensiva de intimidação, através de uma infinidade de ações judiciais, de várias regiões do país, muitas com texto idêntico contra a Folha de São Paulo, e sua jornalista Elvira Lobato,que publicou uma matéria questionando a origem dos fundos da seita e vários membros dela que detêm suas concessões públicas. Só vi o assunto discutido no Observatório da Imprensa na TV Brasil e de madrugada, uma pena.
Voltando agora, ele também fala do uso de linguagem mais forte, inclusive chula. Há muito tempo que não me impressiono com crianças falando coisas como pentelho. Abordagem mais maduras de um programa que nunca passa antes das 23:00, não é um avanço, é uma possibilidade.
Não vou perder meu tempo comparando Queridos Amigos a por exemplo, Família Soprano ou Roma, é matar mosca usando uma bomba atômica, prefiro chamar atenção para o fato que Desperate Housewives que tem várias vezes mais venalidade, diálogos afiados, e personagens intrigantes, nos Estados Unidos passa em canal aberto, em horário nobre, na rede pertencente a um conglomerado que rima com família, a DISNEY.
Poderia argumentar que os Estados Unidos são mais liberais. Falso, alguns americanos são assim, mas a maioria deles é conservadora, ou não teria reeleito George W. Bush. O que explica o sucesso de Desperate Housewives? Ora o programa é excelente. Bastou isso, embora a ABC, emissora também de Lost, também está longe de ser uma HBO.
Num post mais sensato, Daniel Piza, jornalista do Estado de São Paulo discorre sobre como a televisão, infelizmente apenas e tão somente a por assinatura, oferece mais que entretenimento mais grandes opções artísticas.

Parece que o cargo está vago.

Estou me candidatando ao cargo de editor da versão local do GLOBO ESPORTE. Meus requisitos, bom-senso, e reviso qualquer texto que me cai a mão, inclusive aqueles que não escrevi, e de qualquer assunto.
Eu jamais deixaria passar uma bobagem como a que vi hoje. Na chamada a apresentadora, Mariana Sasso disse, "O Ceará confirma sua fama de celeiro de talentos do handbol".
Celeiro de talentos do handbol? O Ceará? Do que ela está falando?
A matéria mostrava duas garotas que estão de mudança para Santa Catarina. Duas garotas mesmo, adolescentes, receberam o convite para jogar por um time de um colégio do sul. Nem ao menos é um time profissional. As duas estão certas, devem ser boas atletas, para a idade, por isso receberam a proposta, e alguma vantagem, ao menos hospedagem, devem ter garantidas. A família ganhou um vídeo profissional para passar nas festas de família. O jornalismo esportivo perdeu espaço para uma matéria relevante. E olha que o futebol cearense tem muita pauta interessante para ser coberta.
Mas estou sendo muito esperançoso, afinal uma crônica esportiva que tem alguém do naipe de um Victor Hannover...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Conduta de Risco (Resenha)

É divertido pensar que é uma piada metalinguística. Tamanho o fiasco de Batman & Robin, resultou no engavetamento por 8 anos de qualquer projeto com o Homem-Morcego, e depois de muitos senões reiniciasse a franquia do zero, com o foco numa abordagem realista, fugindo do carnavalesco que até então dominava a série. No meio de Batman Begins, o menino Bruce Wayne ouve de seu pai o conselho, "por que nós caímos, ora para nos levantarmos em seguida".
Com as exceções de Alicia Silverstone e Chris O'Donell, que continuam num limbo, não é que Joel Schumacher, Akiva Goldsman, Arnold Schwarzenegger, Uma Thurman, também ouviram o ensinamento de Thomas Wayne. Schumacher dirigiu o competente Por Um Fio, e o ótimo Tigerland. Goldsman depois ganhou o Oscar de roteiro por Uma Mente Brilhante, escreveu também Eu, Robô e recentemente quebrou a banca com nova parceira com Will Smith em Eu Sou A Lenda. Schwarzenegger se reinventou como governador da Califórnia, e não deixa de ser interessante um membro do Partido Republicano imigrante, pró casamento gay e com plataforma ecológica. Uma Thurman chutou o mala do Ethan Hawke, depois de descobrir que ele a traía, e não largou o pé de Quentin Tarantino até que cumprisse uma promessa vaga de um filme que ela protagonizaria de uma mulher que parte para a vingança contra o marido que tentou matá-la no dia do casamento. Sem isso talvez não veríamos Beatrix Kiddo empunhando uma Hattori Hanzo num colante amarelo emulando Bruce Lee no filme Arena da Morte, em Kill Bill.
Mas de todos a volta por cima mais surpreendente é a de George Clooney, é verdade que aproveitou a bolada que recebeu no desastre para comprar um palácio medieval em Lago Como, na Itália, onde mora, mas manteve o cachê congelado, o que não afugentou para ser convidados para projetos diferenciados. Um deles, que deu início a esta guinada, investimento seu numa produtora em conjunto com o diretor Steven Sodenbergh: Irresistível Paixão. O filme é excelente, muito divertido, digamos que lembra 11 Homens e um Segredo, pois Clooney repete o papel de ladrão charmoso, mas sem pirotecnias e com um roteiro melhor, não é à toa que é melhor papel de Jennifer Lopez, que esta incrível, e não me refiro apenas a sua forma física.
Deliberadamente não comentarei a faceta de Clooney como diretor, estou me estendendo muito, o assunto merece atenção especial, e ainda nem comecei a falar sobre o filme que me propus. Com sorte após o lançamento de sua nova empreitada, Leatherheads terei a chance de rasgar a seda.
Clooney tem suas melhores atuações em papéis opostos a sua persona pública de glamour e simpatia, homens moralmente ambíguos, dilacerados por conflitos e frustrações internas. Tais como o major Archie Gates de Três Reis, o cientista Chris Kelvin no (lamentavelmente de público restrito) Solaris e o agente da CIA Bob Barnes de Syriana, este último lhe valeu o Oscar de ator coadjuvante. E se este ano não fosse o de Daniel Day-Lewis, seria razoável esperar que levasse outro nessa vez na categoria principal por Conduta de Risco.
É o primeiro filme como diretor, do até então roteirista Tony Gilroy, o mesmo da série Jason Bourne. Da trilogia do agente desmemoriado, Gilroy foi especialmente bem sucedido em transplantar o sentido de urgência, inclusive com uma edição frenética, com muitos cortes (mas não maçante). O que torna mais admirável, é que na película raramente os conflitos acabam em violência física, em vez disso ela se manifesta em diálogos cortantes.
A história transcorre num espaço de 4 dias em que Michael Clayton (George Clooney), um advogado de uma grande firma em Nova York. Clayton é especializado na área do Direito que ele próprio chama de faxina. Através de uma extensa rede de contatos limpar a "sujeira" que os clientes de seu escritório. Num momento especialmente delicado, divorciado sem a guarda do filho, falido devido a um restaurante que não deu certo, devendo a agiotas que sem trégua lembram que o prazo vence numa semana, é chamado para limpar um estrago do tamanho do desastre de Chernobyl.
Um dos sócios-seniores da firma surta durante uma audiência de litígio, onde defendia uma Conglomerado Industrial que produziu um herbicida cancerígeno, contra uma ação coletiva de habitantes de uma cidadezinha em Milwaukee. O processo se arrasta a seis anos e o valor da indenização alcançou os 3 bilhões de dólares. Arthur Edens tem uma espécie de epifania, se recusa a tomar seus remédios contra depressão, e passa a sabotar seu cliente. Em pânico os outros sócios esperam que Clayton convença Edens a retomar sua medicação, e concluia o caso.
Uma das melhores sacadas do enredo é mostrar o quanto as pessoas que lidam com esse lado obscuro das grandes corporações tem que se manter constante estado de anestesia. Edens é o único caso clínico, mas os demais personagens tem que usar máscaras; anulam a espontaneidade como Karen Crowder (Tilda Swinton), que ensaia compulsivamente suas respostas até o ponto em que soam naturais. Marty Bach engole quaisquer escrúpulos ao ver a quantidade de horas desprendidas no caso e de olho numa fusão com um escritório de Londres. Os capangas a serviço da U/North, a tal empresa, que executam o serviço sujo,inclusive no sentido mafioso dessa expressão.
O elenco merece destaque, defendendo com garra seus papéis, já me manifestei quanto a Clooney, mas também é certo esperar um grande trabalho de Tilda Swinton, uma mulher que tenta se condicionar a ser o executivo que se espera dela, transformando-se numa caricatura assustada e histérica. E o que dizer de Tom Wilkinson, esplendoroso. Não consigo me lembrar um filme em que estivesse mal, mais ainda, não sei se o crédito é dele o de seu agente mais também o número de ótimos filmes que participa, Entre Quatro Paredes, O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Oscar e Lucinda, Moça com Brinco de Pérola e veja só: Batman Begins.
Por favor, veja o trailer do filme que posto abaixo. Atenção para a seqüência de diálogos de tão polidos que ofuscam, meu favorito é Clayton dizendo "eu não sou o cara que você mata, sou o cara que você compra" (só por preciosismo não escolho "eu sou Shiva, o deus da morte", o correto seria Kali). Se possível vá ver este belo filme. Excendo-me ainda mais, veja nos cinemas, se ainda em cartaz, ao menos para ver o fabuloso final, com a lírica última cena na tela grande.