Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de setembro de 2009

Inimigos Públicos (Resenha)


John Dillinger foi assassinado numa tocaia armada por agentes do FBI quando saia do Cine Biograph. Isto não é spoiler, é história! E qualquer um minimamente informado que Michael Mann a contaria em Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) sabe que ele se ateria aos fatos, com o rigor aos detalhes que vem caracterizando sua carreira.
Não há créditos de abertura em seus filmes, e Mann não apenas é entusiasta, mas um dos poucos que usam os recursos do cinema digital com autoridade: a câmera ágil mas não nervosa ou picotada com centenas e cansativos cortes, uma fotografia fascinante por minimalista. Tudo girando para criar uma experiência de imersão, hoje praticamente banida por deficiência dos realizadores, do cinema que não vê problemas de ser comercial, e que pode sim ser um produto refinado.
Uma constante que vem requintando a cada novo filme, o profissionalismo e ética no trabalho, seja ele qual for. Em Fogo Contra Fogo (Heat, 1995), Neil MacCuley (Robert DeNiro) dispensa um assecla por ser um desleixado, atira a esmo, imperdoável; o personagem de Al Pacino é descrito assim (cito de memória): "está no terceiro casamento, sabe o que isso significa, que nunca vai pra casa, que está sempre trabalhando, no escritório numa campana...". A família é sempre sacrificada, em Ali (Ali, 2001) é o fator (além da traição) para o divórcio Muhammed e Belina, que não queria que disputasse a luta com George Foreman no Zaire (hoje Congo). O policial Fanning (Mark Ruffalo) de Colateral (Collateral, 2004), ele próprio trabalhando na alta madrugada não hesita em ligar para um superior e arrastá-lo de casa para um necrotério.
Só que agora temos duas evoluções. Primeiro, se anteriormente os personagens estão sobrecarregados, estressados, pelo exigências da excelência absurda para o trabalho, John Dillinger se diverte com gosto, não confundir com displicência. Confirma-se no planejamento dos roubos de bancos, pelas roupas finas, a postura e fala ousada e levemente insolente. Tal excitação volta-se contra ele na metade da trama, quando descobre o que está ultrapassado, um novo tipo de criminoso começa a agir com a integração das quadrilhas por todo os Estados Unidos. Dillinger passa a ser um anátema por não só atrair atenção indesejada na caçada das forças policiais para prendê-lo quando, surpreso percebe que um balofo numa mesa com telefone anotando apostas na liga nacional de beisebol pode render muito mais que ele.
O segundo ponto revigorante é que mantendo a busca por um realismo, Mann também atiça o imaginário. O ar solene evoca O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), a violência os tradicionais filmes de gângster como Inimigo Público (Public Enemy, 1931), a ação dos homens da lei emula Os Intocáveis (The Untochables, 1987); e no ponto alto o próprio cinema; construtor de arquétipos, no seu personagem que entende o magnetismo do criminoso-heroi, não só usando a seu favor como medindo sua popularidade. Suas idas ao cinema não são só entretenimento, mas igualmente pesquisa de mercado. É patente sua sastifação.


Torna melhor o contraste com seus antagonistas um palpável, Melvin Purvis, por um sempre admirável Christian Bale; e outro imaterial no qual J. Edgar Hoover, (Billy Crudup) idealizador e diretor-chefe do FBI por quase 40 anos, acredita encarnar. Esse choque corroe o sisudo agente Purvis. Ele não acredita que está numa cruzada contra o crime ou em missão para fundar a primeira organização federal, que utiliza métodos modernos de investigação, é apenas um homem com um trabalho a fazer. Hoover sim, e quem conhece a biografia deste personagem sabe o quão perigosos homens assim podem ser. Fina ironia, e já antecipando o que viria na história americana, o filme não esconde os métodos deste ser sinistro; ao sair duma comissão no congresso, articula para difamar os senadores contrários as suas posições, ou sendo explícito que não importa através de quais meios, John Dillinger e associados deviam ser detidos.
Então de um lado temos um escroque com um distintivo e todo o peso da lei, e do outro um bandido galante e cavalheiro. Clichê? Só quando malfeito, Não é o caso aqui. Ainda melhor é que o segundo é que sem esforço angaria popularidade, o outro só pelo achaque.
Pena que no momento que escrevo esta resenha, Inimigos Públicos esteja saindo de cartaz nos cinemas, é desses filmes que perdem quando não vistos na tela grande. Seja pelos imensos close-ups que tosam os histrionismo e cacoetes forçados de qualquer atuação, e pelo magnífico ato final no cerco à Dillinger, culminando na última cena com sua amante, Billie Frechette (Marion Cotillard) sozinha no plano. Soberbo.
Eis logo abaixo a principal canção interpretada pela cantora Diana Krall, em pequena participação, depois o trailer. Se possível corra para próxima sessão disponível, ou esteja atento quanto chegar as locadoras, falando por mim, mal posso esperar para voltar a este microcosmo.




terça-feira, 12 de maio de 2009

Eclesiastes 3,1-8


Li sobre uma teoria defendendo que a derrocada da indústria musical não começou com o MP3 e o Diamond Rio. O primeiro prego no caixão foi a incorporação das gravadoras aos mastodônicos conglomerados de entretenimento. Sem autonomia, gente gabaritada, e com sensibilidade, foi substituída por engravatados, de olho apenas no balanço trimestal.
Quem se daria ao luxo de esperar pelo menos 3 discos, para que o artista amadurecesse e encontrasse seu estilo, na verdade quanto mais dócil melhor. Já na estréia emplaca-se uma sequências de hits nos rankings de mais tocadas. Aos primeiros sinais de desgaste sai mais em conta jogar ao léu o coitado e erigir the next big thing.
Gosto da idéia. Não invibializa outras (como a supracitada sobre o MP3), e reuni um binômio tão poderoso quanto devastador: ganância e burrice. Explica coisas como o triste destino da Motown. Abandonou-se a sede de Detroit , donde tinha uma verdadeira conexão, para Los Angeles, e daí em diante foi minguando. Hoje a gravadora que foi ponta-de-lança do melhor da música moderna americana (Marvin Gaye, Smokey Robinson, Supremes, Jackson 5, George Clinton, Sly and Family Stone, Rick James), vive só de acervo. Com suas particularidades a história da Atlantic e Blue Note (voltadas para o Rock e Jazz, respectivamente).
Saem Ahmet Erturgün, George Martin, Quincy Jones, Phil Spector, entram Timberland, R. Kelly, Babyface, Pharrel Williams. Digamos que são dois times vencedores, cada uma em sua época, só que uma está para o seleção brasileira na Copa de 1970 e o outro para a de 1994, com toda a carga nostálgica e qualidade embutidas na comparação.
Voltando a tese inicial, a carreira de Madeleine Peyroux funciona como "grupo de controle". Esta cantora franco-americana tem a sorte de estar num gênero que atualmente ninguém dá muita bola, o jazz. Conservando uma certa tranquilidade para levar sua obra. Teve maturidade em se apoiar nos standards, encarando com uma docilidade charmosa as comparações com os mestres, e pesos de influências, como o timbre muito próximo ao de Billie Holiday. Uma sensibilidade que imprimiu sua própria marca em canções de mitos como Leonard Cohen, Serge Gainsbourg e Elliot Smith. Suas versões não se acanham frente aos originais.
Assim, após três discos, finalmente ela se sentiu a vontade para expor suas próprias composições em Bare Bones, lançado neste ano, desde já na minha lista de melhores. O começo não é promissor, com a boboca Instead. Uma coleção de versos tolos sobre como é bacana em vez de ficar deprimido, ver como o mundo é batuta e ficar alegrinho. Como ensina Rob Fleming, no livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby, música boa mesmo, é sobre tristeza, fossa, pé-na-bunda (e atentem que não estou dizendo que não existe música alegre e divertida). A impressão ruim permanece na faixa-título Bare Bones, mesmo sendo melhor que a anterior.
O jogo está perdido, se você for da geração Ipod, que só ouve uma, ou duas faixas, e dez segundos das outras. Nós velhos caquéticos da velha ordem temos esta teimosia de ouvir todo o disco, chegou a hora da virada. Damn the Circunstances é linda:

Now the lines are drawn and we sleep in the rags and dust/ Where all good will has gone and the dreams we had went bust.

Você ainda está se recuperando e na sequência, versos tão diretos e devastadores como os de River of Tears:

Stop all this talk, turn off the telephone/ Open up another bottle, send those people home/Let it get real quiet, turn that lamp way down low/ I’m gonna float down this river of tears.

O clima é de intimidade, longe de declarações derramadas. Arranjos musicais minimalistas acentuam a voz, e ela embora delicada, chicoteia e marca sua mente:

I shiver in the mirror, pull my belt across my hips/ The leather’s hard in bending as your fingers to my lips/ I wrap it tightly in defense as if your arms were near/ But for your love and treachery there’s nothing left to fear/ I’ll take a glass of wine and recall the words you spoke/ From the bottom of your cup, covered in spit and smoke/ But in your voice I’ll hear my own and recognize the crime/ That all your love and treachery has ended up as mine/

Minha favorita Love and Treachery.
Bate uma tristeza quando me lembro que os discos de Madeleine Peyroux são um tanto bissextos, mas quem sabe:

Instead of feelin' low, get high on everything that you love. (É boboca, mas o ritmo é tão legal!)

ATUALIZANDO:
O post deveria ter links para as músicas citadas, e os leitores não imaginam minha decepção ao varrer sites como o Youtube e Rádio Uol, sem encontar nada.
Isto ficava martelando na minha cabeça, e não é que num estalo, acordando de madrugada, 04:52 (acredite, tive a pachorra de olhar a hora). E porque não olhar no Hype Machine. EURECA, segue o link, aqui.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Reminiscências


Era um pouco mais novo que o Bentinho menino, do começo de Dom Casmurro, quando li-o pela primeira vez. Detestei. Confessando isto, não tenho como não citar passagem do livro no Capítulo XVIII: "Ao relembrá-las não me acho ridículo, a adolescência e a infância, não são, nestes pontos ridículas; é um dos seus privilégios". Tive sorte, ao menos aqui, Bentinho permaneceu o mesmo garoto tolo e caprichoso até a velhice. Escuso-me a dizer que sou uma pessoa melhor em pespectiva, tornei-me mais cético, mais amargurado, mais recluso, em suma mais maduro. Aos 18 anos, sem compromisso, reli o Dom Casmurro, e fiquei maravilhado, principalmente pelo texto, que só então notei, hilário, e a cada vez mais engraçado em toda nova empreitada. Hoje me divirto na hipótese que no futuro tenha que engolir as palavras que escrevo, comentando a adaptação de Luís Fernando Carvalho, Capitu que acabou semana passada.
Caro leitor, desconfie de quem tenta modernizar qualquer clássico. Um cânone como tal é irretocável, não precisa desses escapismos. Não é que sejam desprovidos de falhas, ou lacunas; n'O Processo de Kafka, o Capítulo VIII está inacabado e assim ficou; e por mais esdrúxulo que seja para quem não leu, o resultado é de absoluta coesão. A manobra tem menos a ver com tornar mais acessível o autor, e sim para facilitar o trabalho do adaptador.
Menciono duas, na expressão da moda, reimaginações, não embusteiras, envolvendo o cânone dos cânones, Shakespeare. Uma delas seguramente a melhor versão já feita. Ricardo III (1995) de Richard Loncraine na direção e Sir Ian McKelley no papel título. Ação é transposta do final da Guerras das Rosas do século XV, para o XX década de 30. O simbolo estilizado do javali, as fardas negras do exército e apoiadores do Rei (lembrando as da SS nazista e os camisas negras da Itália facista), ao som de clássicos das big bands são espetaculares. Soluções como do monólogo inicial da peça (precedido de um prólogo eletrizante), um discurso transmitido à nação do baile de comemoração pelo fim da guerra civil, a ardilosa sedução de Lady Anne acontecendo no necrotério, maravilhosas.
Parafraseando o grande crítico de arte, Giulio Carlo Argan, Hamlet (1996) de Kenneth Branagh é um anti-clássico clássico, pela opção conservadora de usar o texto integral, o resultado é um filme de quatro horas. Existe uma versão editada para duas horas e meia, quem conhece as duas é unânime é apontar a maior como favorita, não só pelo óbvio do desenrolar da trama, mas também por ser mais agradável, não se sente o tempo passar. O cenário muda da recorrente tarcituna corte dinamarquesa na Idade Média, para um luxuoso e iluminado Elsinore, que poderia situar-se no pós-guerras napoleônicas. Além disso o castelo é repleto de espelhos, como se na tentativa que nada há de se esconder no reino; mais, os espelhos são entradas para as passagens secretas.

A mais acertada das escolhas de Luís Fernando Carvalho foi nas partes pinçadas para a mini-série, usar o texto original, sem enxertos, cenas adicionais e/ou explicativas. Colateral, o passo seguinte foi a recusa dum relato naturalista, optando pelo teatral; ironia fina, Machado de Assis é formalmente o introdutor da escola Realista no país (e por Memórias Póstumas de Brás Cubas, quem o leu, acha ainda mais graça do chiste), como falei acima, poupa o diretor de procurar saídas, todas no final, insastifatórias.
Decisões corretas, mas dada a complexidade da obra, se anda no fio da navalha, e várias vezes perdeu-se o siso. A caracterização de Bentinho idoso/narrador é carregadíssima, a postura curvada e encolhida, o tom de voz grave, enervava. Além do ridículo dos bigodes pintados com lápis preto, o personagem deve trazer um tom ridículo, só que, no fim, ficava o estúpido. Outros personagens pelo mesmo motivo estão apatetados como Tio Cosme e Prima Justina, caricaturas toscas. Quem acertou o tom foi Antônio Karnewale que casou de ter no agregado José Dias, com suas afetações, amor pelo superlativos, "no seu modo de dar uma feição monumental às idéias", todo excesso não apenas perdoado, e sim jocosamente insuficiente.
Uma coleção de ninharias, mas pelo volume maculam. Bentinho e Capitu, já casados saem para um passeio e toca Mercedes-Benz de Janis Joplin, num baile o casal antes da dança colocam os fones brancos de IPods. Um dos capítulos que mais gosto, o VI (O administrador interino) donde se extrai: "Viveu assim vinte dois meses na suposição de uma eterna interinidade" (obs.: grifo meu); é arruinada por um pedante Cheek to Cheek de Cole Porter.
Entretanto a mesma Cheek to Cheek funcionou ao ser executada na comovente cena da morte de José Dias. Outra: dona Maria da Glória sendo vestida ao som de God Save The Queen dos Sex Pistols, perfeito! Retrata uma ordem decrépita, porém poderosa, o fecho de ouro, troca-se os pajens andróginos e pálidos; o cortejo que acompanha a dama são mucamas com vistosos turbantes africanos. Ápice, a primeira entrada de Escobar com uma coreografia vigorosa ,acompanhando Iron Man do Black Sabbath.
Não tenho problemas com narrativas não-lineares (admiro David Lynch, e sim, gostei de Império dos Sonhos), enxurradas de conteúdo, ações e dados acontecendo ao mesmo tempo (O Livro de Cabeceira de Peter Greenaway é um dos melhores filmes que vi na vida), e cenários que exigem esforço da audiência (como Dogville e Manderlay). O nó górdio é quando tudo isso é por dissimulação, sem uma idéia de lastro. Tanto assim que apenas no último episódio alcançou o sublime. As "inovações" até diminuiram, mas agora são elegantes; no Capítulo CXXXV, Bentinho assiste Otelo, o Mouro de Veneza, no teatro, não a peça, o filme de Orson Wells , repentindo incessantemente a cena do assassinato de Desdêmona. Bentinho adulto e recém-casado com Capitu continua impostado, mas sem a mão-pesada (e sem bigodinho pintado à lápis). Neste dia a mais impressionante das cenas, o enterro de Escobar, cenário de um fundo branco, alvíssimo e infinito o cortejo se aproxima do féretro todos vestidos de negro. Ao final, Michel Melamed grandioso, na sequência quando Bentinho faz um discurso, o impacto do turbilhão de emoções, a dor pela morte do amigo, vergonha pela situação de expor-se, a dúvida se a mulher o traiu, a confusão tentando decidir que está sofrendo mais se a "suposta amante" de Escobar ou Sancha e o patético quando rasga o discurso e atira os pedaços no túmulo. Genial!
Um último desleixo ficou. Ezequiel visita o pai após a morte da mãe, no livro temos apenas o relato de Bentinho, e como ele reiteradas vezes diz, não é narrador confiável, ao vê-lo afirma, "Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. (...). Era o filho de seu pai". No livro fica a sutileza, na série o garoto era cuspido e escarrado o morto, importante os dois papéis não foram interpretados pelo mesmo ator. Ora, porque não aí fazer o ator usar uma máscara com a cara de Escobar. É legítimo deixar claro que a impressão é enviesada, do jeito que ficou, Capitu era mesmo uma rameira.
Carvalho no aspecto técnico é irrepreensível fotografia, iluminação, edição deveriam servir de referência para os novatos, o figurino é luxuoso. Mostra o tino para escolher protagonistas mulheres como já tinha feito com Simone Spoladore em Lavoura Arcaica (2001). A revelação, Letícia Persiles numa Capitu jovem, encantadora, vibrante, e Maria Fernanda Cândido (trívia: ela já esteve noutra adaptação de Dom Casmurro, e no mesmo papel, o pavoroso filme Dom, de Moacyr Góes), na agora mulher segura e elegante, a antítese de Bentinho, que não tem energia para nada. Capitu é a força motriz da trama, enquanto a teve ao lado ele teve uma vida, sem ela vai murchando. O verdadeiro mistério não é se ele traiu o marido com Escobar, é o que atraiu em Bentinho. Quem acredita que a resposta é a simples ascensão social, é tão vazio e vulgar quanto seus acusadores, coisa que Capitu não é.
Duas cenas de puro deslumbre:




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bombons com fel


Tenho uma brincadeira, um tanto cruel, com casais de amigos quando o nível de sacarina alcança níveis perigosos. Qualquer conversa comigo naturalmente se encaminha para cinema, encorajo então falarmos de comédias românticas, espero que digam seus filmes favoritos, na minha vez, declaro que Closer - Perto Demais é o filme sobre relacionamentos mais engraçado que já vi. Um tanto atordoados, eles aceitam a provocação, afinal em Closer temos mais diálogos espirituosos, e sim, é mais divertido que muitas das xaropadas que fazem sucesso por aí.
Na madrugada de domingo para segunda desta semana, por um feliz acaso acabei assistindo uma pequena gema cinematográfica de mesma lavra, Mentiras Sinceras. É dirigido e roteirizado por Jullian Fellowes, ganhador do Oscar de Roteiro Original por Assassinato Em Gosford Park. Se neste último ele oferece um estudo das classes da sociedade inglesa, desta vez ele ajusta as objetivas para um ambiente mais nuclear, o do casamento.
É um filme de atores, e o trio principal entrega performances magníficas, a começar por um de quem sou fã e já falei anteriormente aqui, Tom Wilkinson, acompanhado de Emily Watson, e Rupert Everett. Wilkinson e Watson, formam um casal bem-sucedido de Londres, uma boa casa no campo, tudo conforme o figurino, até o dia em que um elemento pertuba o acordo tácito de tranquilidade dos dois, Bill Bule (Rupert Everett), filho de um dos membros da aristocracia do interior inglês. Estou deliberadamente evitando dar mais detalhes sobre a trama, e peço ao leitor deste blog que faça a temeridade de dar um voto de confiança ao signatário, uma vez decidido a procurar o DVD na locadora, não leia a resenha. Predisponho-me a ser alugado por todo aquele que se sentiu logrado no fim das contas.
Explicada a razão do meu contorcionismo, permito-me a falar do momento final de uma cena primorosa, Anne Manning (Emily Watson), desabafa para o marido James (Tom Wilkinson), "eu não sei mais o que fazer, falhei em todos os testes que você me fez, e continuarei falhando naqueles que virão, e você sabe disso, por que continua me testando então", ele responde desolado, "eu não sei...". Outro acerto é a escolha do estilo de interpretação de Rupert Everett, seu personagem não faz a menor tentativa de estabelecer empatia com ninguém, muito menos com o espectador, a não ser num pedido gentil em sua última aparição. Torna o história mais poderosa e dá mote para outra sequência tocante.


O final de Mentiras Sinceras também me fez lembrar de outro ótimo filme (além do supra-citado Closer): O Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, tanto porque numa forma muito particular, e mantendo uma coerência com as escolhas e estado emocional dos personagens, há um final, por assim dizer, feliz; e a mensagem final de sempre nos surpreendemos cometendo os mesmos e patéticos erros, tal entendimento nos traz menos conforto do que consolo, mas é algo plenamente humano, muito humano.
Peço desculpas mas não encontrei um trailer com boa qualidade de imagem e nem legendado em português, eis logo abaixo:


domingo, 24 de fevereiro de 2008

Conduta de Risco (Resenha)

É divertido pensar que é uma piada metalinguística. Tamanho o fiasco de Batman & Robin, resultou no engavetamento por 8 anos de qualquer projeto com o Homem-Morcego, e depois de muitos senões reiniciasse a franquia do zero, com o foco numa abordagem realista, fugindo do carnavalesco que até então dominava a série. No meio de Batman Begins, o menino Bruce Wayne ouve de seu pai o conselho, "por que nós caímos, ora para nos levantarmos em seguida".
Com as exceções de Alicia Silverstone e Chris O'Donell, que continuam num limbo, não é que Joel Schumacher, Akiva Goldsman, Arnold Schwarzenegger, Uma Thurman, também ouviram o ensinamento de Thomas Wayne. Schumacher dirigiu o competente Por Um Fio, e o ótimo Tigerland. Goldsman depois ganhou o Oscar de roteiro por Uma Mente Brilhante, escreveu também Eu, Robô e recentemente quebrou a banca com nova parceira com Will Smith em Eu Sou A Lenda. Schwarzenegger se reinventou como governador da Califórnia, e não deixa de ser interessante um membro do Partido Republicano imigrante, pró casamento gay e com plataforma ecológica. Uma Thurman chutou o mala do Ethan Hawke, depois de descobrir que ele a traía, e não largou o pé de Quentin Tarantino até que cumprisse uma promessa vaga de um filme que ela protagonizaria de uma mulher que parte para a vingança contra o marido que tentou matá-la no dia do casamento. Sem isso talvez não veríamos Beatrix Kiddo empunhando uma Hattori Hanzo num colante amarelo emulando Bruce Lee no filme Arena da Morte, em Kill Bill.
Mas de todos a volta por cima mais surpreendente é a de George Clooney, é verdade que aproveitou a bolada que recebeu no desastre para comprar um palácio medieval em Lago Como, na Itália, onde mora, mas manteve o cachê congelado, o que não afugentou para ser convidados para projetos diferenciados. Um deles, que deu início a esta guinada, investimento seu numa produtora em conjunto com o diretor Steven Sodenbergh: Irresistível Paixão. O filme é excelente, muito divertido, digamos que lembra 11 Homens e um Segredo, pois Clooney repete o papel de ladrão charmoso, mas sem pirotecnias e com um roteiro melhor, não é à toa que é melhor papel de Jennifer Lopez, que esta incrível, e não me refiro apenas a sua forma física.
Deliberadamente não comentarei a faceta de Clooney como diretor, estou me estendendo muito, o assunto merece atenção especial, e ainda nem comecei a falar sobre o filme que me propus. Com sorte após o lançamento de sua nova empreitada, Leatherheads terei a chance de rasgar a seda.
Clooney tem suas melhores atuações em papéis opostos a sua persona pública de glamour e simpatia, homens moralmente ambíguos, dilacerados por conflitos e frustrações internas. Tais como o major Archie Gates de Três Reis, o cientista Chris Kelvin no (lamentavelmente de público restrito) Solaris e o agente da CIA Bob Barnes de Syriana, este último lhe valeu o Oscar de ator coadjuvante. E se este ano não fosse o de Daniel Day-Lewis, seria razoável esperar que levasse outro nessa vez na categoria principal por Conduta de Risco.
É o primeiro filme como diretor, do até então roteirista Tony Gilroy, o mesmo da série Jason Bourne. Da trilogia do agente desmemoriado, Gilroy foi especialmente bem sucedido em transplantar o sentido de urgência, inclusive com uma edição frenética, com muitos cortes (mas não maçante). O que torna mais admirável, é que na película raramente os conflitos acabam em violência física, em vez disso ela se manifesta em diálogos cortantes.
A história transcorre num espaço de 4 dias em que Michael Clayton (George Clooney), um advogado de uma grande firma em Nova York. Clayton é especializado na área do Direito que ele próprio chama de faxina. Através de uma extensa rede de contatos limpar a "sujeira" que os clientes de seu escritório. Num momento especialmente delicado, divorciado sem a guarda do filho, falido devido a um restaurante que não deu certo, devendo a agiotas que sem trégua lembram que o prazo vence numa semana, é chamado para limpar um estrago do tamanho do desastre de Chernobyl.
Um dos sócios-seniores da firma surta durante uma audiência de litígio, onde defendia uma Conglomerado Industrial que produziu um herbicida cancerígeno, contra uma ação coletiva de habitantes de uma cidadezinha em Milwaukee. O processo se arrasta a seis anos e o valor da indenização alcançou os 3 bilhões de dólares. Arthur Edens tem uma espécie de epifania, se recusa a tomar seus remédios contra depressão, e passa a sabotar seu cliente. Em pânico os outros sócios esperam que Clayton convença Edens a retomar sua medicação, e concluia o caso.
Uma das melhores sacadas do enredo é mostrar o quanto as pessoas que lidam com esse lado obscuro das grandes corporações tem que se manter constante estado de anestesia. Edens é o único caso clínico, mas os demais personagens tem que usar máscaras; anulam a espontaneidade como Karen Crowder (Tilda Swinton), que ensaia compulsivamente suas respostas até o ponto em que soam naturais. Marty Bach engole quaisquer escrúpulos ao ver a quantidade de horas desprendidas no caso e de olho numa fusão com um escritório de Londres. Os capangas a serviço da U/North, a tal empresa, que executam o serviço sujo,inclusive no sentido mafioso dessa expressão.
O elenco merece destaque, defendendo com garra seus papéis, já me manifestei quanto a Clooney, mas também é certo esperar um grande trabalho de Tilda Swinton, uma mulher que tenta se condicionar a ser o executivo que se espera dela, transformando-se numa caricatura assustada e histérica. E o que dizer de Tom Wilkinson, esplendoroso. Não consigo me lembrar um filme em que estivesse mal, mais ainda, não sei se o crédito é dele o de seu agente mais também o número de ótimos filmes que participa, Entre Quatro Paredes, O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Oscar e Lucinda, Moça com Brinco de Pérola e veja só: Batman Begins.
Por favor, veja o trailer do filme que posto abaixo. Atenção para a seqüência de diálogos de tão polidos que ofuscam, meu favorito é Clayton dizendo "eu não sou o cara que você mata, sou o cara que você compra" (só por preciosismo não escolho "eu sou Shiva, o deus da morte", o correto seria Kali). Se possível vá ver este belo filme. Excendo-me ainda mais, veja nos cinemas, se ainda em cartaz, ao menos para ver o fabuloso final, com a lírica última cena na tela grande.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Onde os fracos não tem vez (Resenha)

Uma trivialidade, este é o primeiro filme dos irmãos Cohen que assisti no cinema. Estou feliz, poderia ser um da safra mediana, como O Amor Custa Caro, Matadores de Velhinhas, ou Na Roda da Fortuna. Para minha sorte, Onde os Fracos Não Tem Vez, ombreia com os melhores como Gosto de Sangue, Ajuste de Contas. Alguns mais entusiastas afirmam que é o melhor filme da dupla desde Fargo, polidamente discordo, O Homem que Não Estava Lá é melhor, e com alguns corpos de vantagem.
Caso o leitor do blog seja cinéfilo, acredito que enxergará um padrão, sempre que revisitam o gênero noir, Joel e Ethan Cohen, nos entregam uma nova gema cinematográfica. Numa visão heterodoxa, esse axioma também abrange Barton Fink, que não deixa de ser um suspense, ainda que com andamento e toques de humor bizarro.
Onde os Fracos Não Tem Vez, é adaptado do livro de Cormac McCarthy. Seus livros tocam numa releitura do Oeste americano, principalmente no que ele próprio definiu Trilogia da Fronteira: Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidade das Planícies. O primeiro virou um filme, Espírito Selvagem, dirigido por Billy Bob Thornton, com Matt Damon e Penélope Cruz, um filme ruim ressalte-se.
Melhor sorte desta vez, durante uma caçada um zé-ninguém, Llewelyn Moss (Josh Brolin), encontra no meio do deserto no Texas uma mala cheia de dinheiro e dezenas de corpos numa compra de drogas que deu fatalmente errado. Moss é o que os americanos chamam de white trash, não tem renda definida, mora num trailer com a mulher, outra pobre coitada. A grana pode significa a redenção dessa vidinha medíocre, mas tanto dinheiro assim dá início a uma caça ao tesouro dos tipos mais vis da espécie humana.
O pior deles é personificado em Anton Chigurh (Javier Bardem, pule de dez para o Oscar de melhor coadjuvante neste domingo), numa releitura do pistoleiro dos filmes de faroeste, sempre vestido de preto. Chirgurh nunca se exalta, metódico no agir e quando necessita de cuidados médicos (a cena em que consegue remédios é memorável), sua fala é sempre mansa e baixa, não importando a situação, que de forma invariável termina com várias mortes pelo caminho, algumas por futilidades decididas num cara ou coroa. Muitas delas pelo uso original dum cilindro de ar comprimido, que ao longo do filme se revela das armas mais letais, uma das atrações do filme.
O filme é amargo, qualquer sentimento ou gesto solidário quando não põe os personagens em perigo, é recriminado. Uma atitude gentil de Moss, fornece a trilha que possibilita saber que achou o dinheiro; um motorista alerta que não se deve pegar caronas. Ou na melhor cena que exemplifica: Anton Chigurh pede uma camisa a dois garotos, um deles a oferece, e de graça, mas Chigurh insiste em pagar ao rapaz, começando uma discussão com o outro que exige que divida o dinheiro.
Uma ironia sutil é que a ação se desenrola em 1980, justamente quando começaram as eras Reagan e Thatcher, os dois políticos são o ápice de um modelo de extremo individualismo, que não foi substituído até hoje. Moss se recusa a pedir ajuda, pensa que tem um plano perfeito, que pode resolve tudo sozinho. Chigurh elimina não só a "concorrência", mas qualquer um que possa ajudá-lo, é óbvio que por exemplo, quando ferido pode subornar um médico, mas se recusa a isso. A cena que descrevi acima, da camisa, só ocorre por uma excepcionalidade.
O roteiro como soe acontecer com os irmãos Cohen é excelente, tão bom que tem gerado uma incompreensão quanto ao final descrito como anti-climático. Credito as queixas a um certo condicionamento a finais fechados. É notória a aversão das platéias americanas, e por tabela, mundial a subjetividade. Mas o final aparente controverso está de acordo com as idéias expostas no filme.
O fim é com duas conversas de Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife que sai a busca de Moss. Ele abre o filme com uma narração em off sobre xerifes que no passado não portavam armas, bastava sua força moral para impor respeito. O oeste americano sempre foi violento, Bell sente que os novos tempos acabaram com os códigos, e a proporcionalidade. No mitológico tiroteio de OK Curral que fez a fama de Wyart Earp e Doc Holliday morreram 23 pessoas, bem menos que Chigurh mata, com muitas dessas mortes gratuitas.
Bell não consegue conviver com um mundo assim. Numa conversa com seu auxiliar mescla paradoxalmente indignação e resignação ao ler uma noticia de jornal onde vizinhos só perceberam que o casal de idosos da casa ao lado foram mortos pelos homens que ocupavam a casa quando foi perturbados em sua tranqüilidade do lar, não associaram o fato de velhos sumirem depois que esses indivíduos apareceram, nem quando mais tarde começaram a cavar buracos no quintal. Como dito antes a aurora do individualismo.
Isto leva Ed Tom Bell ao tocante final, duas conversas, onde reflete sobre o passado e os tempos atuais lembrando o pai, o avô, e a si próprio, três gerações de xerifes. Numa conversa com o auxiliar de seu avô falam dos velhos tempos, refletindo sobre violência e vingança, e mais tarde com a mulher a descrição de um sonho com o pai. Falando por mim: Espetacular!