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domingo, 6 de setembro de 2009

Inimigos Públicos (Resenha)


John Dillinger foi assassinado numa tocaia armada por agentes do FBI quando saia do Cine Biograph. Isto não é spoiler, é história! E qualquer um minimamente informado que Michael Mann a contaria em Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) sabe que ele se ateria aos fatos, com o rigor aos detalhes que vem caracterizando sua carreira.
Não há créditos de abertura em seus filmes, e Mann não apenas é entusiasta, mas um dos poucos que usam os recursos do cinema digital com autoridade: a câmera ágil mas não nervosa ou picotada com centenas e cansativos cortes, uma fotografia fascinante por minimalista. Tudo girando para criar uma experiência de imersão, hoje praticamente banida por deficiência dos realizadores, do cinema que não vê problemas de ser comercial, e que pode sim ser um produto refinado.
Uma constante que vem requintando a cada novo filme, o profissionalismo e ética no trabalho, seja ele qual for. Em Fogo Contra Fogo (Heat, 1995), Neil MacCuley (Robert DeNiro) dispensa um assecla por ser um desleixado, atira a esmo, imperdoável; o personagem de Al Pacino é descrito assim (cito de memória): "está no terceiro casamento, sabe o que isso significa, que nunca vai pra casa, que está sempre trabalhando, no escritório numa campana...". A família é sempre sacrificada, em Ali (Ali, 2001) é o fator (além da traição) para o divórcio Muhammed e Belina, que não queria que disputasse a luta com George Foreman no Zaire (hoje Congo). O policial Fanning (Mark Ruffalo) de Colateral (Collateral, 2004), ele próprio trabalhando na alta madrugada não hesita em ligar para um superior e arrastá-lo de casa para um necrotério.
Só que agora temos duas evoluções. Primeiro, se anteriormente os personagens estão sobrecarregados, estressados, pelo exigências da excelência absurda para o trabalho, John Dillinger se diverte com gosto, não confundir com displicência. Confirma-se no planejamento dos roubos de bancos, pelas roupas finas, a postura e fala ousada e levemente insolente. Tal excitação volta-se contra ele na metade da trama, quando descobre o que está ultrapassado, um novo tipo de criminoso começa a agir com a integração das quadrilhas por todo os Estados Unidos. Dillinger passa a ser um anátema por não só atrair atenção indesejada na caçada das forças policiais para prendê-lo quando, surpreso percebe que um balofo numa mesa com telefone anotando apostas na liga nacional de beisebol pode render muito mais que ele.
O segundo ponto revigorante é que mantendo a busca por um realismo, Mann também atiça o imaginário. O ar solene evoca O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), a violência os tradicionais filmes de gângster como Inimigo Público (Public Enemy, 1931), a ação dos homens da lei emula Os Intocáveis (The Untochables, 1987); e no ponto alto o próprio cinema; construtor de arquétipos, no seu personagem que entende o magnetismo do criminoso-heroi, não só usando a seu favor como medindo sua popularidade. Suas idas ao cinema não são só entretenimento, mas igualmente pesquisa de mercado. É patente sua sastifação.


Torna melhor o contraste com seus antagonistas um palpável, Melvin Purvis, por um sempre admirável Christian Bale; e outro imaterial no qual J. Edgar Hoover, (Billy Crudup) idealizador e diretor-chefe do FBI por quase 40 anos, acredita encarnar. Esse choque corroe o sisudo agente Purvis. Ele não acredita que está numa cruzada contra o crime ou em missão para fundar a primeira organização federal, que utiliza métodos modernos de investigação, é apenas um homem com um trabalho a fazer. Hoover sim, e quem conhece a biografia deste personagem sabe o quão perigosos homens assim podem ser. Fina ironia, e já antecipando o que viria na história americana, o filme não esconde os métodos deste ser sinistro; ao sair duma comissão no congresso, articula para difamar os senadores contrários as suas posições, ou sendo explícito que não importa através de quais meios, John Dillinger e associados deviam ser detidos.
Então de um lado temos um escroque com um distintivo e todo o peso da lei, e do outro um bandido galante e cavalheiro. Clichê? Só quando malfeito, Não é o caso aqui. Ainda melhor é que o segundo é que sem esforço angaria popularidade, o outro só pelo achaque.
Pena que no momento que escrevo esta resenha, Inimigos Públicos esteja saindo de cartaz nos cinemas, é desses filmes que perdem quando não vistos na tela grande. Seja pelos imensos close-ups que tosam os histrionismo e cacoetes forçados de qualquer atuação, e pelo magnífico ato final no cerco à Dillinger, culminando na última cena com sua amante, Billie Frechette (Marion Cotillard) sozinha no plano. Soberbo.
Eis logo abaixo a principal canção interpretada pela cantora Diana Krall, em pequena participação, depois o trailer. Se possível corra para próxima sessão disponível, ou esteja atento quanto chegar as locadoras, falando por mim, mal posso esperar para voltar a este microcosmo.




terça-feira, 18 de agosto de 2009

Era uma vez...

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...quando o recluso ogro Alexandre recebeu um convite para sair de sua caverna e ir aos festejos de fim de ano das meninas Rute e Sara. O convite não era fora de propósito pois o ser disforme era parente delas, porém inusitado: dias antes numa taverna ele declarara que seu objetivo na vida era construir um bunker anti-humanidade e das adeus a tudo (uma brincadeira, por certo; jamais que ele conseguiria juntar a soma necessária). Aceitou, era genuíno o apreço pela infantas e o respeito pelos pais delas. Na data marcada estava lá, se divertiu e coroou a noite num banquente com pastel de frango e catupiry. O ogro continuou sua vida solitária, mas guardava feliz a lembrança daquela noite.


As meninas estavam muito bonitas, Rute de bailarina e Sara de sereia, a apresentação bem ensaiada, e o som e músicas apreciáveis. Gostei muito de ter ido, mas uma coisa me incomodou. O tema da festa era Peter Pan, e a mestre de cerimônias, que acredito que seja uma das pedagogas da escola, insistia muito na idéia da manutenção da ingenuidade, que devermos sempre nos mantermos crianças, fugindo para a Terra do Nunca pois o mundo fora é perigoso e corrompido.
Discordo frontalmente desta abordagem, e acho que J. M. Barrie, criador da peça original também, não custa lembrar que no final, os garotos perdidos voltam para Londres, Wendy abandona Peter para deixar de ser criança e ter uma vida plena. O menino que não queria crescer é apaixonante, porém em sua candura que acha que um dar um beijo é a troca de um dedal de costura; mimado, interessado apenas em suas brincadeiras; impertinente ao limite, é um ser incompleto, triste. A premissa de Hook - a Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991) de Steven Spielberg, onde Pan (Robin Williams) deixa a Terra do Nunca, cresce, tem filhos, e um emprego chato é ótima, pena que mal compreendida. Sim, no final ele reaprende a voar, relembra os jogos de rima, gracejos e divertimentos, mas o que se quer demonstrar é a busca do equilíbrio, foi a urgência adulta de resgatar os filhos, inclusive afetuosamente, que o faz recordar tudo.
Noutro filme, o magnífico Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, 2004); que dramatiza o encontro real de Barrie com a família Llewelyn Davies, inspiração para a obra máxima, há uma diálogo-chave do caçula Peter Davies (Freddie Highmore) com o escritor (interpretado por Johnny Depp); aos prantos, mais por raiva do que por tristeza exige saber o quão delicada e grave é a situação. Sem subterfúgios ou condescendência.
Lamentável o lugar-comum que as crianças são incapazes para lidar com os problemas da vida. O que elas não têm é o bagagem intelectual para decupar-los, mas até é bem possível que um adulto também não, todavia o que assimila pode ser tão sofisticado, embora diferente. Sendo a tarefa dos pais e família prepará-las para enfrentar estas adversidades.
Sinal de como estamos falhando nisto é ver como os contos de fadas, quando não ignorados, são deturpados. A causa pode ser atribuída à Walt Disney. Causa não culpa; Disney não se propôs a educar as crianças, mas sim a divertí-las. Gênio buscou o melhor material para trabalhar nas suas criações, e obstinado trabalhou como um louco, quase faliu em várias ocasiões para virar um padrão e um mito. Que pecado cometeu ele se anos mais tarde aparece uma Xuxa...
Infelizmente acabou preponderando a mística do final feliz, todos os vilões punidos, a princesa encontra se valente príncipe. É razoável poupar de detalhes como por exemplo que a rainha má de Branca de Neve come o fígado e pulmões que o caçador lhe traz acreditando ser os da donzela (aliás ela morre dançando em sapatos em brasa); a pequena sereia Ariel se suicida ao ver o casamento de Eric com outra mulher; As irmãs de Cinderela tem os olhos arrancados por pássaros; o Pequeno Polegar tapea um monstro para degolar sete meninas. Há um conto dos Irmãos Grimm chamado "como crianças brincavam de açougueiro umas com as outras". Em muitos aspectos, nos dias de hoje tais informações só tem uma vertente macabra.
(Importante: tais histórias tinham um propósito admonitório claro, e sem firulas, tanto quanto agora o mundo é um lugar extremamente perigoso, o que é diferente é a concepção de infância que só surgiu no século XIX, e até o início do século XX um programa matinal da família poderia ser as execuções públicas de condenados)
O dilema é quando se sacrifica elementos que tornam a trama mais poderosa e rica. Que um conto de fadas pode ser assustador e denso, tal como O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno, 2006). Um triunfo que junta a guerra civil espanhola e o melhor da tradição literária. O sinistro Capitão Vidal (Sergi López) do exército franquista é tão ameaçador quanto o devorador de crianças com olhos nas palmas das mãos.


E espetacular a forma como o diretor, roteirista e produtor Guillermo Del Toro utiliza os símbolos e regras dos contos de fadas. O Fauno (Doug Jones) alerta Ofélia (Ivana Baqueno) que não deve comer nada quando estiver no submundo. É recorrente avisos como esses como nas lendas grega das sementes de romã do Hades dadas a Perséfone, nem sempre o tabu tinha efeitos nefastos, embora sempre arriscados, ainda os gregos falavam das maçãs douradas do jardim Hespérides, os vikings de outras maçãs também douradas cultivadas por Iduna, que davam imortalidade as quem as comesse. Outra o uso da raiz de mandrágora como remédio. Mais uma a própria jornada de Ofélia nas três tarefas dadas pelo Fauno para regressar ao seu reino perdido.
Tudo coroado pelo tocante final, que prefiro não me estender. Basta saber que contra o mal devemos revidar com coragem, bondade e abnegação.
Seu filho não captará todas estas referência, o seu papel é ensinar-las. Boa sorte, ele será uma pessoa melhor, e lhe será eternamente grato por isso.

NOTA:
  • Del Toro tem outro filme que merece atenção, A Espinha do Diabo (El Espinazo del Diablo, 2001), e a série HellBoy. Não possuem a mesma profundidade, mas são diversão garantida.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Até adamantium pode vergar

Contemporâneos da mesma década do século XIX, cinema e quadrinhos surgiram como diversão barata. Coincidentemente, primeiras experiências de mescla-los foram em suas épocas de ouro, nos anos de 1940. Os seriados de Batman, Shazam (Capitão Marvel), Flash Gordon, Fu Manchu, Capitão América, Superman. Uma e outra arte se retroalimentou, Orson Wells, fã confesso do Spirit , inspirou-se nos grandes planos e jogos de luzes espetaculares do traço de Will Eisner, para o Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941). E donde veio as referências de Eisner? Dos filmes do expressionismo alemão: O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920), Os Crimes do Dr. Marbuse (Das testament des Dr. Mabuse, 1933), M - O Vampiro de Dusseldorf (M, 1931), e outros.
A parceria foi sabotada pelo ataque inclemente da onda de puritanismo rasteiro dos anos 1950. Vieram o código Hayes para Hollywood (entre outras coisas; ainda que casados, haveria duas camas no quarto dos conjugues, separados por um móvel; beijos só de alguns segundos, nunca com língua à mostra); e o Comics Code Authority nas editoras, sobre isso basta dizer que é o grande responsável pela enxurrada de histórias imbecializantes que serviram de mote para o seriado camp de Batman (aquele desastre protagonizado por Adam West e Burt Ward). Tolhe-se qualquer menção de conflito, angústia e sexualidade (embora esdrúxulamente só reforçou a suposta homosexualidade da dupla dinâmica). As empresas especializadas nos quadrinhos de terror, vertente mais interessante na época, faliram. Não se pode esquecer do comitê de Atividades Antiamericanas presidido pelo senador (e biruta) Joseph McCathy, que na sua paronóia anticomunista perseguiu o quanto pode, todos os artistas que conseguiu.
O divórcio durou os 40 anos seguintes, com tentativas de aproximação, destaco três, discutíveis se as melhores, porém acredito significativas do período, Barbarella (idem, 1968), Superman (idem, 1978) e Batman (idem, 1989). A rigor, nenhum deles têm legítimas conexões com os quadrinhos que os inspiraram. Barbarella é muito mais um retrato dos anos 1960's e veículo para sua estrela, Jane Fonda. O filme de Richard Donner transpõe um ícone planetário para uma plataforma específica; sua incrível bilheteria na época com certeza não era composta pelos os leitores do gibi do kryptoniano, não obstante, o reconheciam e sabiam de sua história. Tim Burton também se serviu disso, mas com uma proposta oposta: Batman, o filme, é a visão particular de um criador sobre o ídolo. Gotham City não é uma metrópole urbana, está mais para uma gigantesca vila gótica assombrada por bizarros malfeitores (estranho que poucos realmente ameaçadores), com um guardião inadequado. E manipulado, o assassino dos pais de Bruce Wayne não é o Coringa. O clima de fábula se acirra na sequência: Batman, o Retorno (Batman Returns, 1992) com as origens do Pinguim, abandonado num cesto de vime; e a da Mulher-Gato, que ressuscita duma queda ao ser lambida por gatos (quem sabe são gatos radiotivos?).
O que temos em comum aqui é que nenhum destes filmes usou a grande contribuição que os quadrinhos podem oferecer. Por favor, não estou me referindo a obviedade de seus painéis servirem como storyboards já prontos, falo do que é mais precioso: o roteiro. Importante é não confundir com enredo, nisso basta uma linha: vilão sequestra a mocinha, heroí parte para resgaste, luta, vilão preso, casal reunido, fim. A construção dos personagens, como interagem uns com os outros, suas marcas pessoais, motivações, fantasmas e dramas pessoais, um manancial valioso. Muitos quadrinhos têm décadas de erros e acertos sobre o que faz determinado personagem. Se o Superman matasse a torto e a direito, ou o Batman só mais um riquinho sem angústias que nas horas vagas tem como hobby combater o crime; nunca alcançariam a mística que possuem.
Credito uma das falhas que prejudicou Superman Returns (idem, 2006) precisamente a escolha de ser uma adaptação não da HQ, e sim do filme dos anos 1970's. A Fortaleza da Solidão formada por cristais é um anacronismo brega, a redação do Planeta Diário parece saída de uma sitcom sem-graça. E um Lex Luthor panaca, que casa com uma velhota moribunda para fingir estar regenerado não funciona. Ao menos Kevin Spacey não carregou na estultice, no cerco ao Superman na ilha artificial tivemos lampejos da ira contra o heroi.
A desfiguração de personagens rende casos estranhos como as adaptações de obras do gênio Alan Moore. Sem reducionismo ou condescendência Moore está para os quadrinhos como Shakespeare está para a literatura, isso se depois de ler suas obras ainda acreditar que haja distinção entre elas. Por isso cada tentativa nas telas vem acompanhada de frustração, talvez o único cineasta com estofo para tarefa tenha sido Stanley Kubrick. Constatine (idem, 2005) e V de Vingança (V for Vendetta, 2005) são até bons filmes, para quem não leu as histórias originais. Para A Liga Extraordinária ( The League of Extraordinary Gentlemen, 2003), O Monstro do Pantâno (Swamp Thing, 1982) (dirigido por Wes Craven ??) e o recente Watchmen (idem 2009) o desprezo é pouco.
Por sua vez não defendo a fidelização extrema. Sin City (idem, 2005) e 300 (idem, 2005) no que pesem suas direções de arte e visuais arrebatadores, são meras traduções tridimensionais das obras originais, quiçá não por acaso que são bem rasas na trama. Não há lá muita profundidade em Marv, ou no Assassino Amarelo. Leônidas e a Rainha Gorgo são os únicos com alguma densidade no filme de Zack Snider, difícil que as pessoas sequer lembrem o nome de quem Rodrigo Santoro interpreta.
É chilique se importar que o Homem-Aranha no cinema produza sua teia orgânicamente, em vez de usar os tradicionais lançadores. É necessário entender que com isso o diretor pode usar o tempo para desenvolver um outro aspecto, como por exemplo a relação com o tio Ben. O cuidado é para não buscar o porquê dos lançadores: Peter Parker é um cientista, e criou um produto que uma vez patenteado poderia lhe render milhões, mas se fizer isto sua identidade secreta estará em perigo e porá em risco seus entes queridos; como está sempre em penúria financeira só aprofunda seus dilemas.
Uma das felizes transgressões é X-Men (idem, 200). O plot já tem uma conexão com a atualidade ao lidar com genética, preconceito e racismo. Bryan Singer, um dos diretores mais inteligentes do cinema americano (o que só acentua a decepção no Superman, o Retorno) fincou o pé ainda mais na realidade e construiu um filme de ficção-científica de fôlego. O embate Xavier-Magneto não tem nada da (maravilhosa) bobagem à la James Bond, lunático quer dominar o mundo, e um agente esperto (Wolverine), junto com sua turminha maneira não deixa.
Por fim a percepção das diferentes dinâmicas entre as mídias. Existe algo que na minha petulância característica chamo de lei Alexandre Melo - Bryan Singer para adaptações cinematográficas; seu enunciado diz: Não importa o quão sensacional seja o design nos quadrinhos, alguém de carne e osso vestido assim parecerá ridículo, e.g.: o Flash. Singer fez os X-Men abandonar os colantes, vestindo-os com couro preto. Christopher Nolan em Batman Begins (idem, 2005) "intuitivamente" estava atento à norma e na impossibilidade de contorná-la (um homem-morcego de sobretudo?), adapto-a, primeiro dando uma função específica para cada aspecto do uniforme, seja nas orelhas (microfones omnidirecionais) ou nas ridículas barbatanas nas luvas (rígidas e úteis nas lutas corpo-a-corpo). Segundo escondendo Batman o máximo possível, a roupa é toda negra, nas brigas sempre se movimentando muito e com desfecho rápido.
A tríade X-Men, Homem-Aranha (Spider-Man, 2002) e Batman Begins com suas respectivas continuações arrebanhou uma montanha de dinheiro e elogios, consolidado uma nova categoria cinematográfica. Mas como este post tenta demonstrar não basta catar os direitos na editora e dar sinal verde para a produção. Tome-se como exemplo as absurdas adaptações baseadas nos quadrinhos do escocês Mark Millar, Procurado (Wanted, 2008) é uma outra história; Kick-Ass (idem, 2009) antes de ser escrita já estava vendida para os estúdios, e o filme será lançado antes de terminar de ser publicada! E o que dizer da disputa milionária por Youngblood (que na feliz definição do blog nerd MdM, é uma pilha de bosta fumegante), sem exagero: um lixo!
Corre-se o risco de temos num futuro próximo um gênero zumbi, como os musicais ou faroestes. Todos possuem códigos estritos que, se não respeitados resultam em pastiche, cuja a reincidência embota o público, mina a confiança dos produtores em apostas mais ousadas, sabotando-se ainda mais. As informações iniciais de Wolverine (idem, 2009) prometiam algo diferente e melhor do resultado apresentado; um filme massa véio, com um protagonista bunda gritando o tempo todo, para mostrar-se selvagem e perigoso.
E o que fazer? O de sempre: prestigiar o que é bom, foi gratificante ver Batman - The Dark Knight (idem, 2008) com sua arrecadação bilionária; e estar atento a coisas fora do mundo dos colantes e super-herois, Marcas da Violência (A History of Violence, 2005), Anti-Heroi Americano, (American Splendor, 2003), Ghost World (idem, 2001), OldBoy (idem, 2003), todos excelentes e vindos dos quadrinhos.

NOTA: (Mensagem Cifrada)
  • Nem a chuva, nem a neve, nem o calor, nem o escuro da noite, nem a internet lenta ou a falta de um modem impedirá o blogueiro de entregar seu post.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Who gives a fuck?

Do you speak english? Como traduziria o título acima? Várias vezes nos filmes a dublagem brasileira escolheu, "quem se importa com isso", e quando o intérprete estava furioso, "tô me lixando". De certa forma, está correto; mas de certa forma Sílvio Berlusconi (atual premiê da Itália) é um político de opiniões fortes, ou seja, não é essencialmente veraz. Tolheu-se a venalidade da expressão.
Imagine uma cena onde um pistoleiro liga para seu capo da máfia, e diz que o antigo consigliere da famiglia, principal testemunha numa investigação do FBI, a quem foi instruído a matar, está acompanhado do filho, mate os dois então, fala o bandido; é um menino de oito anos; e quem se importa com isso?
Outra, dessa vez no Country Club londrino, dois colegas do time de Pólo e ex-estudantes de Eton, o décimo-sétimo conde de Halifax, encontra o dono do maior estaleiro em York, trocando o seguinte diálogo: Meu Deus, homem! O que deu em você? É verão, e você usando cashmere!, o outro pousa seu cálice com xerez na mesa e, ora meu caro, e quem se importa com isso?
Dois episódios possíveis, fazem sentido, mas não críveis. As situações, personagens, contextos não batem. Um roteirista profissional, digno de assim ser qualificado, não escreveria isso. Então não é aceitável que na tradução seja descuidada, e prefira a escolha mais preguiçosa.
Há um lugar-comum em dizer que no Brasil tem a melhor dublagem do mundo, não tenho idéia de onde isso surgiu, e não entendo porque alguém, além dos próprios dubladores, a defendem tão ardorosamente. Até pode ser verdade, não dá para tirar os méritos de vários trabalhos tão carismáticos, tal é a identificação com o personagem, que atrapalha qualquer substituição. Tive essa sensação n'O Fugitivo (The Fugitive, 1993), Harrison Ford tinha a "voz de Bruce Willis". O Eddie Murphy de 48 Horas (48 Hours, 1982) é "diferente" de Um Tira da Pesada (Beverly Hills Cop, 1984), que para todos os efeitos é a oficial. O caso mais recente, e desastroso, foi a mudança da voz de Homer Simpson, que pelo que li sobre o assunto se deu, vergonhosamente e apenas, por razôes pecuniárias.
Gostaria de discorrer sobre alguns pontos. Relembrando, é inegável a capacidade que muitos dubladores brasileiros tem em criar empatia com o público, mas o objetivo aqui é mais criterioso.
Curioso que todas as vozes sempre estão no mesmo tom, seja que os personagens estejam se esgoelem em desespero, ou confabulando aos sussuros. A diferença é que nos últimos as palavras soam sibilantes e longas, e nas outras as vogais são mais abertas e com as palavras mais ditadas de modo mais rápido. O espectador perde um recurso a mais que valoriza o trabalho do ator e dá sutileza à história. Nota-se isso com Philip Seymour Hoffman em Capote (idem, 2005), reproduzindo a voz muito particular de Truman Capote (que é bem diferente da sua) com a mesma elegância da escrita dele. E prevejo que acontecerá com o Coringa de Heth Ledger no último filme do Batman (ainda não aluguei o filme, já disponível nas locadoras, e não pude conferir, se for o seu caso, caro leitor, esteja a vontade para deixar sua opinião nos comentários).
Outra armadilha, não solucionada é o sotaque. A casca de banana não é exatamente o estrangeiro exótico (oriental, do leste europeu, russo, africano, etc), mas o regional, o peculiar. Os personagens rurais, e preferencialmente cômicos, acabam falando num estilo que com boa-vontade pode ser rotulado como mineiro-caipira-retardado. Não é engraçado, é ridiculo. Caso queira presenciar um momento de vergonha alheia, procure Janela Secreta (Secret Window, 2004) e com o fast-foward, veja as cenas com John Turturro com o aúdio em português.
Por fim, o que motivou o post, e limitando apenas a produções faladas em inglês, onde o signatário tem alguma, mas não muita, autoridade para considerações.
A maior das bizarrices acontece no final d'O Bom Pastor (The Good Shephard, 2006), Edward Wilson e Richard Hayes (Matt Damon e Lee Pace, respectivamente) conversam. O que eles falam, o que está legendado e a dublagem, são três coisas divergentes. A legendado tenta se aproximar do original, mas a dublagem atira para outro lado. É verdade que o que conversam, tem relação com uma particularidade da língua inglesa que não encontra equivalente semântico em português, entretanto os tradutores podiam rebolar mais.
Incomoda também a suavização da linguagem. De início, é até louvável, nos dias de hoje, fuck é praticamente uma vírgulas nas frases, e nesse ritmo não deve demorar para ouvirmos até nos filmes da Disney, merecemos ser poupados disso.
O busílis nas vezes que se traem, ou emascula o roteiro. A linguagem forte participa na caracterização e dá profundidade à narrativa. Negligenciar isto prejudica a apreciação da obra. Atrapalha a conexão com nossas histórias pessoais.
Foi o que aconteceu na sexta-feira passada, quando a Globo exibiu Closer - Perto Demais (Closer, 2004). As situações oscilam entre o hilário e o insosso.
Larry (Clive Owen) está desesperado ao saber que está a mulher o está deixando, logo espumando de raiva por se descobrir traído, não vai resguadar pudores em perguntar polidamente: "vocês transaram nesta casa".
Ou antes quando ele troca mensagens num chat, e Dan (Jude Law) , a quem o doutor pensa ser uma mulher o chama de o sultão da mulherada, o termo não foi bem esse.
Não gostaria que a impressão fosse apenas sobre a vulgaridade, mas a habilidade de usando-a construir uma cena memorável. Como aquela em que Larry encontra Alice em um Clube de Strip-Tease e vão para uma cabine particular:
-Você é linda.
-Obrigada!
-What does your cunt taste like?
-Paraíso.
A frase em inglês foi traduzida como 'que gosto você tem?", fica esmaecida. Para quem sabe inglês, e claro viu o filme, podendo ver a perfomance arrasadora de Owen sabe que ele aliou essa grosseria com fragilidade. A luxúria e a solidariedade com alguém tão machucado quanto ele próprio. Pena que algo assim tão precioso seja perdido.
Não dá para dizer qual a melhor das dublagens, porque bem, teríamos que conhecê-las todas, e com avaliadores versados em todas as línguas afora. E quer saber duma coisa? Who gives a fuck?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ao mestre com carinho!

Muitos ensaios discorrem sobre a importância das frases iniciais dum livro para arrebatar o leitor. Os mesmos argumentos podem ser transpostos para os filmes, o estranho é que demorou pouco mais de 50 anos da criação do cinema para alguém notar isto, e dá-lhe o refinamento, que ainda hoje não foi superado. Este homem foi americano Saul Bass. Formado pela escola de Design de Nova York, atendeu um pedido do diretor Otto Preminger, criar a abertura de Carmem Jones (idem, 1954). Os créditos, que de início, atendiam apenas exigências protocolares dos sindicatos, passaram a preâmbulo da história.
Carmem Jones é uma adaptação do musical da Broadway de mesmo nome, que por sua vez inspirado em Carmem, ópera de Bizet. Veja abaixo a solução empregada por Bass:



Com este trabalho, tornou-se um dos profissionais mais requisitados de Hollywood, e naturalmente, se deu ao luxo de trabalhar com os melhores. Em nova parceria com Preminger esteve no clássico Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959); um espetáculo ainda mais grandioso:



Bass foi ainda membro da equipe técnica responsável pelo que de melhor Alfred Hitchcock fez em sua carreira. Junto ao fotógrafo Robert Burks, o montador George Tomasini e o compositor Bernard Herrmann. Todos presentes em obras-primas como Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958):




e Psicose (Psycho, 1960):



É de Psicose umas das mais deliciosas querelas cinematográficas. Saul Bass sempre afirmou que a sequência do ataque no chuveiro, não apenas é idéia sua, como chegou a gravar um teste de câmeras com uma dublê, montou já na forma que se eternalizaria, e no fim das contas ele e Hitch co-dirigiram a cena com a atriz Janet Leigh. Hitchcock, por sua vez achava absurda a história, segundo ele, Bass apresentou uma versão, que rejeitou de cara, disse o que queria, detalhadamente, aprovou então os storyboards, e rodou tudo sozinho. Membros da filmagens corrobararam a narrativa de Bass, Leigh ficou com a de Hitchcock.
A partir dos anos 80, do século passado, o convites rarearam, e junto com a mulher, Elaine, voltou a Nova York dedicando-se a seu bensucedido estúdio de Design Industrial. Deve-se ao maior dos nerds do cinema, Martin Scorcese a volta triunfal do grande artista.
Com sua humildade e entusiasmo característicos, Scorcese convidou-lhe a fazer a abertura do filme que trabalhava na época: Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1989). O resultado? Os hilariantes créditos "cheirados" tal como uma carreira de cocaína:



Depois desse começo auspicioso, participou de todos os filmes do diretor ítalo-americano até sua morte em 1996. Sua presença de tão marcante que gerou herdeiros insuspeitos.
Seven - Os Setes Pecados Capitais (Se7en, 1995):



Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002):



Ou plágios descarados compare os créditos de A Época da Inoncência (The Age Of Innoncence, 1993) e os da minissérie da Rede Globo, Os Maias (idem, 2001):





O mesmo para os cartazes, pelos quais também foi revolucionário. Veja as "semelhanças" dos de Anatomia de um Crime e Clockers - Irmãos de Sangue (Clockers, 1995):


Proponho um tira-teima, escolha qual dos pôsteres para o mesmo filme, é mais belo, o da esquerda é de Saul Bass:


Encerro com os dois, na minha opinião pessoal, melhores trabalhos. Não consigo apontar um que seja superior ao outro.
Cassino (Casino, 1995)



Spartacus (idem, 1960)



NOTAS:
  1. A idéia para o post nasceu de uma conversa com meu amigo, Márcio Aguiar, sendo a ele, então dedicado.
  2. Por uma orientação tacanha, a Rede Globo vem sistematicamente cortando as aberturas dos filmes exibidos na emissora. Quanto as séries de TV, o corte é sumário, sempre usando uma edição mambembe. O caso mais revoltante é o de Simpsons, todas as aberturas de cada episódio do desenho animado são diferentes, e nunca, repito, nunca foram mostradas pelo canal. Claro que quando se trata de seus próprios produtos, o caso é diferente, vai ver que é porque são assinados pelo gênio da raça, Hans Donner.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O homem planeja, e Deus ri.

Renato Machado, apresentador do Bom Dia Brasil da Rede Globo, tem um comentário diário na Rádio CBN sobre vinhos (que a emissora disponibiliza na forma de podcast, em seu site). O de hoje foi daqueles que abrem reflexões.
Um ouvinte mandou um e-mail dizendo que ele e sua mulher são apreciadores da bebida. Combinaram que a cada aniversário de 10 de anos de casamento celebrarariam bebendo da mesma garrafa, da safra de 2007, ano da cerimônia, assim até as bodas de ouro. Escreveu pedindo sugestões, uma última exigência, o vinho deveria no mínimo conservar a qualidade e se possível melhorar com o tempo.
Machado falou primeiro da dificuldade em encontrar um vinho que aberto, continuasse a melhorar com o tempo, existem casos de excelentes vinhos que envelhecem mal, do contrário, e o mais estranho, e no que melhor se encaixa no pedido do casal, de grandes vinhos nos primeiros anos, que passam por uma hibernação e depois de décadas ressurgem. E ainda que 2007 não foi uma das safras das mais prodigiosas.
Lembrei-me de, "ano passado só tivemos separações, neste ano só de casamentos", é a fala que abre uma das melhores cenas da comédia enólogo-filosófica (genêro inventado pelo signatário) Sideways - Entre umas e outras (Sideways, 2004). Sem estragar o prazer de quem não assistiu, e situando a outra parte da audiência, é quando Miles Raymond (Paul Giamatti) encontra sua ex-mulher no casamento do amigo. Findo o diálogo, Miles sente que chegou o momento para finalmente tomar aquele vinho especialíssimo que vinha guardando. Uma dica melindrosa, o aforismo de Napoleão sobre a bebida: Nas vitórias porque mereço, nas derrotas porque preciso.
Menos pelo deboche, o pedido do começo deste post traz o sentimento do desconcerto. A idéia de que o casal continuará casado pelos próximos 50 anos. Não penso em apaixonado, ou ainda amando-se por tanto tempo, não são condições necessárias para se manter um matrimônio, mas se ambos estão dispostos, há dividir, e apreciar na vida conjugal, tal como no vinho, o tempo que passarão adormecidos, um longo período de enfado, se terão a paciência para aguardar o novo sabor, contundo ainda valioso. Fico cogitando se o casal pensou nisso num rompante apaixonado, uma decisão consensual, uma idéia simpática, ou só uma graça para ter uma mensagem lida em rede nacional.
E imagino o desafio interno, necessário de cada um de nós, de até fazer uma troça do tipo: e se no final o sujeito na lua-de-mel atravessa a rua para comprar um chicabom para a mulher e é atropelado por uma ambulância; mas na sua hora, de espírito sincero, ter a certeza que conseguirá.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Fever Dog.


A cena mais tocante de Quase Famosos (Almost Famous, 2000) é quando Anita Miller (Zooey Deschanel) explica o porquê decidiu "sair de casa e se tornar aeromoça". Ela coloca na vitrola da casa a terceira faixa do álbum Bookends, de Simon & Garfunkel: America, para sua mãe e irmão menor. É pujante, normalmente esperaríamos uma sequência de xingamentos, agressões físicas, um constragimento que no futuro seria repetidamente jogado na cara de uma ou outra. Desta vez não; ainda que doloso, é delicado; convicente para todos que a decisão é dura, porém incontornável. Poderoso o simbolismo, música não apenas como entretenimento, e sim como forma de diálogo com o outro, verbalizando nossas escolhas, o quem nós somos para nós mesmos.
O filme é uma elegia de uma época morta, os álbuns em vinil são apenas a faceta mais vulgar disto. Hoje com os sites de torrent, ou para aqueles com pruridos, lojas virtuais onde se compra músicas em formato digital, e IPod's, findou-se o tempo que a música era uma oportunidade de congraçamento, uma experiência coletiva. O poeta T. S. Elliot disse uma vez que a televisão é a invenção mais deprimente da humanidade, faz com que milhares de pessoas possam rir da mesma piada mas todas estão sozinhas em suas casas. Decaímos mais um pouco, cada um ouve, solitariamante, seu próprio tipo de música, o problema não é nem o solipsismo (o recolhimento é uma chance para o autoconhecimento), mas que as estamos nos tornando quase autistas do tipo savant, acumulando toneladas de informação que acabam irrelevantes. Com o Google, Myspace, YouTube, blogs da internet podemos saber que tal DJ usou um coral de uma tribo perdida do Mali, para no final ser uma música na melhor da hipóteses exótica. Nunca cogitaríamos sentar e ouvir o que esta sendo tocado, como música de churrascaria, basta como ruído de fundo, não é para prestar atenção.
Encerrou-se o tempo que se comprava um álbum para ser apreciado plenamente, baixa-se apenas as faixas que interessam. Madonna vende a cascata que não apresenta um show, é um evento em que a música é só um dos atrativos (a legião de deslumbrados sempre cai nessa!). O artista que passa meses no estúdio buscando as melhores texturas sonoras está comercialmente morto, o que é pior que a morte física, a última tem lá seu apelo mórbido, aquele que não está no hit parade, é um leproso, um loser, que ninguém quer ter por perto.
Uma historinha rápida: os (insira seu insulto aqui) do Detonautas Rock Clube foram numa audição com o produtor Tom Capone, depois de ouvir as composições descacou os sujeitos, achando tudo sofrível, só que a gravadora estava procurando alguém com o som dos caras e que faria um contrato com eles. É o tipo de coisa que você jamais ouviria de alguém da estatura de Ahmet Ertugün, o descobridor de Otis Redding, Aretha Franklin, Wilson Pickett, Ray Charles, The Doors, Led Zeppelin; Crosby, Still, Nash and Young.
Voltando ao filme que motivou este post, tenho ainda duas coisas a destacar. Uma é a solar atuação de Kate Hudson, como Penny Lane. Ela nunca esteve tão linda e encantadora. Como afirmei, vivia-se outro tempo. Eis mais uma prova; quando Penny retruca da pergunta de William Miller (Patrick Fugit), se não conhecia gente normal.
-Gente famosa é mais interessante!
Tenho lembranças muito vagas; mas é verdade, um dia já foi assim mesmo.
Outra, são todas as cenas em que aparece Lester Bangs, encarnado pelo maravilhoso Philip Seymour Hoffman. Bangs é um personagem real, um dos melhores críticos de rock que já existiu, vale a pena buscar seus livros sobre o assunto, se não me engano, dois deles disponíveis em português.
Depois dos ensaios de George Orwell (outro dos meus heróis), durante o filme ele dá os melhores conselhos sobre como escrever, que pode ser sintetizado na frase (numa tradução livre):
- Seja honesto, honesto e impiedoso.
E também dá valiosas informações sobre o que é ser uncool:
-É claro que estou em casa, eu estou sempre em casa, eu sou uncool.
-Pode me ligar a qualquer hora, inclusive de noite, eu durmo tarde, bem tarde!
Não tem como não gostar desse cara!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Reminiscências


Era um pouco mais novo que o Bentinho menino, do começo de Dom Casmurro, quando li-o pela primeira vez. Detestei. Confessando isto, não tenho como não citar passagem do livro no Capítulo XVIII: "Ao relembrá-las não me acho ridículo, a adolescência e a infância, não são, nestes pontos ridículas; é um dos seus privilégios". Tive sorte, ao menos aqui, Bentinho permaneceu o mesmo garoto tolo e caprichoso até a velhice. Escuso-me a dizer que sou uma pessoa melhor em pespectiva, tornei-me mais cético, mais amargurado, mais recluso, em suma mais maduro. Aos 18 anos, sem compromisso, reli o Dom Casmurro, e fiquei maravilhado, principalmente pelo texto, que só então notei, hilário, e a cada vez mais engraçado em toda nova empreitada. Hoje me divirto na hipótese que no futuro tenha que engolir as palavras que escrevo, comentando a adaptação de Luís Fernando Carvalho, Capitu que acabou semana passada.
Caro leitor, desconfie de quem tenta modernizar qualquer clássico. Um cânone como tal é irretocável, não precisa desses escapismos. Não é que sejam desprovidos de falhas, ou lacunas; n'O Processo de Kafka, o Capítulo VIII está inacabado e assim ficou; e por mais esdrúxulo que seja para quem não leu, o resultado é de absoluta coesão. A manobra tem menos a ver com tornar mais acessível o autor, e sim para facilitar o trabalho do adaptador.
Menciono duas, na expressão da moda, reimaginações, não embusteiras, envolvendo o cânone dos cânones, Shakespeare. Uma delas seguramente a melhor versão já feita. Ricardo III (1995) de Richard Loncraine na direção e Sir Ian McKelley no papel título. Ação é transposta do final da Guerras das Rosas do século XV, para o XX década de 30. O simbolo estilizado do javali, as fardas negras do exército e apoiadores do Rei (lembrando as da SS nazista e os camisas negras da Itália facista), ao som de clássicos das big bands são espetaculares. Soluções como do monólogo inicial da peça (precedido de um prólogo eletrizante), um discurso transmitido à nação do baile de comemoração pelo fim da guerra civil, a ardilosa sedução de Lady Anne acontecendo no necrotério, maravilhosas.
Parafraseando o grande crítico de arte, Giulio Carlo Argan, Hamlet (1996) de Kenneth Branagh é um anti-clássico clássico, pela opção conservadora de usar o texto integral, o resultado é um filme de quatro horas. Existe uma versão editada para duas horas e meia, quem conhece as duas é unânime é apontar a maior como favorita, não só pelo óbvio do desenrolar da trama, mas também por ser mais agradável, não se sente o tempo passar. O cenário muda da recorrente tarcituna corte dinamarquesa na Idade Média, para um luxuoso e iluminado Elsinore, que poderia situar-se no pós-guerras napoleônicas. Além disso o castelo é repleto de espelhos, como se na tentativa que nada há de se esconder no reino; mais, os espelhos são entradas para as passagens secretas.

A mais acertada das escolhas de Luís Fernando Carvalho foi nas partes pinçadas para a mini-série, usar o texto original, sem enxertos, cenas adicionais e/ou explicativas. Colateral, o passo seguinte foi a recusa dum relato naturalista, optando pelo teatral; ironia fina, Machado de Assis é formalmente o introdutor da escola Realista no país (e por Memórias Póstumas de Brás Cubas, quem o leu, acha ainda mais graça do chiste), como falei acima, poupa o diretor de procurar saídas, todas no final, insastifatórias.
Decisões corretas, mas dada a complexidade da obra, se anda no fio da navalha, e várias vezes perdeu-se o siso. A caracterização de Bentinho idoso/narrador é carregadíssima, a postura curvada e encolhida, o tom de voz grave, enervava. Além do ridículo dos bigodes pintados com lápis preto, o personagem deve trazer um tom ridículo, só que, no fim, ficava o estúpido. Outros personagens pelo mesmo motivo estão apatetados como Tio Cosme e Prima Justina, caricaturas toscas. Quem acertou o tom foi Antônio Karnewale que casou de ter no agregado José Dias, com suas afetações, amor pelo superlativos, "no seu modo de dar uma feição monumental às idéias", todo excesso não apenas perdoado, e sim jocosamente insuficiente.
Uma coleção de ninharias, mas pelo volume maculam. Bentinho e Capitu, já casados saem para um passeio e toca Mercedes-Benz de Janis Joplin, num baile o casal antes da dança colocam os fones brancos de IPods. Um dos capítulos que mais gosto, o VI (O administrador interino) donde se extrai: "Viveu assim vinte dois meses na suposição de uma eterna interinidade" (obs.: grifo meu); é arruinada por um pedante Cheek to Cheek de Cole Porter.
Entretanto a mesma Cheek to Cheek funcionou ao ser executada na comovente cena da morte de José Dias. Outra: dona Maria da Glória sendo vestida ao som de God Save The Queen dos Sex Pistols, perfeito! Retrata uma ordem decrépita, porém poderosa, o fecho de ouro, troca-se os pajens andróginos e pálidos; o cortejo que acompanha a dama são mucamas com vistosos turbantes africanos. Ápice, a primeira entrada de Escobar com uma coreografia vigorosa ,acompanhando Iron Man do Black Sabbath.
Não tenho problemas com narrativas não-lineares (admiro David Lynch, e sim, gostei de Império dos Sonhos), enxurradas de conteúdo, ações e dados acontecendo ao mesmo tempo (O Livro de Cabeceira de Peter Greenaway é um dos melhores filmes que vi na vida), e cenários que exigem esforço da audiência (como Dogville e Manderlay). O nó górdio é quando tudo isso é por dissimulação, sem uma idéia de lastro. Tanto assim que apenas no último episódio alcançou o sublime. As "inovações" até diminuiram, mas agora são elegantes; no Capítulo CXXXV, Bentinho assiste Otelo, o Mouro de Veneza, no teatro, não a peça, o filme de Orson Wells , repentindo incessantemente a cena do assassinato de Desdêmona. Bentinho adulto e recém-casado com Capitu continua impostado, mas sem a mão-pesada (e sem bigodinho pintado à lápis). Neste dia a mais impressionante das cenas, o enterro de Escobar, cenário de um fundo branco, alvíssimo e infinito o cortejo se aproxima do féretro todos vestidos de negro. Ao final, Michel Melamed grandioso, na sequência quando Bentinho faz um discurso, o impacto do turbilhão de emoções, a dor pela morte do amigo, vergonha pela situação de expor-se, a dúvida se a mulher o traiu, a confusão tentando decidir que está sofrendo mais se a "suposta amante" de Escobar ou Sancha e o patético quando rasga o discurso e atira os pedaços no túmulo. Genial!
Um último desleixo ficou. Ezequiel visita o pai após a morte da mãe, no livro temos apenas o relato de Bentinho, e como ele reiteradas vezes diz, não é narrador confiável, ao vê-lo afirma, "Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. (...). Era o filho de seu pai". No livro fica a sutileza, na série o garoto era cuspido e escarrado o morto, importante os dois papéis não foram interpretados pelo mesmo ator. Ora, porque não aí fazer o ator usar uma máscara com a cara de Escobar. É legítimo deixar claro que a impressão é enviesada, do jeito que ficou, Capitu era mesmo uma rameira.
Carvalho no aspecto técnico é irrepreensível fotografia, iluminação, edição deveriam servir de referência para os novatos, o figurino é luxuoso. Mostra o tino para escolher protagonistas mulheres como já tinha feito com Simone Spoladore em Lavoura Arcaica (2001). A revelação, Letícia Persiles numa Capitu jovem, encantadora, vibrante, e Maria Fernanda Cândido (trívia: ela já esteve noutra adaptação de Dom Casmurro, e no mesmo papel, o pavoroso filme Dom, de Moacyr Góes), na agora mulher segura e elegante, a antítese de Bentinho, que não tem energia para nada. Capitu é a força motriz da trama, enquanto a teve ao lado ele teve uma vida, sem ela vai murchando. O verdadeiro mistério não é se ele traiu o marido com Escobar, é o que atraiu em Bentinho. Quem acredita que a resposta é a simples ascensão social, é tão vazio e vulgar quanto seus acusadores, coisa que Capitu não é.
Duas cenas de puro deslumbre:




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bombons com fel


Tenho uma brincadeira, um tanto cruel, com casais de amigos quando o nível de sacarina alcança níveis perigosos. Qualquer conversa comigo naturalmente se encaminha para cinema, encorajo então falarmos de comédias românticas, espero que digam seus filmes favoritos, na minha vez, declaro que Closer - Perto Demais é o filme sobre relacionamentos mais engraçado que já vi. Um tanto atordoados, eles aceitam a provocação, afinal em Closer temos mais diálogos espirituosos, e sim, é mais divertido que muitas das xaropadas que fazem sucesso por aí.
Na madrugada de domingo para segunda desta semana, por um feliz acaso acabei assistindo uma pequena gema cinematográfica de mesma lavra, Mentiras Sinceras. É dirigido e roteirizado por Jullian Fellowes, ganhador do Oscar de Roteiro Original por Assassinato Em Gosford Park. Se neste último ele oferece um estudo das classes da sociedade inglesa, desta vez ele ajusta as objetivas para um ambiente mais nuclear, o do casamento.
É um filme de atores, e o trio principal entrega performances magníficas, a começar por um de quem sou fã e já falei anteriormente aqui, Tom Wilkinson, acompanhado de Emily Watson, e Rupert Everett. Wilkinson e Watson, formam um casal bem-sucedido de Londres, uma boa casa no campo, tudo conforme o figurino, até o dia em que um elemento pertuba o acordo tácito de tranquilidade dos dois, Bill Bule (Rupert Everett), filho de um dos membros da aristocracia do interior inglês. Estou deliberadamente evitando dar mais detalhes sobre a trama, e peço ao leitor deste blog que faça a temeridade de dar um voto de confiança ao signatário, uma vez decidido a procurar o DVD na locadora, não leia a resenha. Predisponho-me a ser alugado por todo aquele que se sentiu logrado no fim das contas.
Explicada a razão do meu contorcionismo, permito-me a falar do momento final de uma cena primorosa, Anne Manning (Emily Watson), desabafa para o marido James (Tom Wilkinson), "eu não sei mais o que fazer, falhei em todos os testes que você me fez, e continuarei falhando naqueles que virão, e você sabe disso, por que continua me testando então", ele responde desolado, "eu não sei...". Outro acerto é a escolha do estilo de interpretação de Rupert Everett, seu personagem não faz a menor tentativa de estabelecer empatia com ninguém, muito menos com o espectador, a não ser num pedido gentil em sua última aparição. Torna o história mais poderosa e dá mote para outra sequência tocante.


O final de Mentiras Sinceras também me fez lembrar de outro ótimo filme (além do supra-citado Closer): O Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, tanto porque numa forma muito particular, e mantendo uma coerência com as escolhas e estado emocional dos personagens, há um final, por assim dizer, feliz; e a mensagem final de sempre nos surpreendemos cometendo os mesmos e patéticos erros, tal entendimento nos traz menos conforto do que consolo, mas é algo plenamente humano, muito humano.
Peço desculpas mas não encontrei um trailer com boa qualidade de imagem e nem legendado em português, eis logo abaixo:


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Unusual

O signatário deste blog é um mal leitor de poesia, é um tanto surpreendente quando faz esta revelação entre seus conhecidos, que presenciaram várias manifestação do seu amor aos livros. As razões para tal merecem ser exploradas, mas não agora.
Por isso, constrangido confesso uma solene ignorância da obra de Nelson Ascher, gente gabaritada o tem como um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, repasso o alto conceito, mas lembrando que não é meu. Tenho sim, muita admiração pelo ensaísta, que até alguns meses ocupava a PENSATA na segunda-feira da ILUSTRADA, caderno de cultura da FOLHA DE SÃO PAULO. Sentimento que só cresce a cada novo texto de seu substituto, Luís Felipe Pondé, comparar os textos de um e outro é como comparar a luz de uma lanterna e a do sol.
Minha, também é a inveja por Ascher ser tradutor de várias línguas; das corriqueiras, inglês, francês, italiano; as clássicas, latim e grego antigo; e mesmo exóticas como as eslavas. Sempre tive fascínio por esse personagem que é o tradutor, a erudição requerida, a sensibilidade para absorver a obra, a escolha das palavras, a tessitura do conjunto no trabalho finalizado.
O poema abaixo ficou conhecido por ser lido numa bela cena de Quatro Casamentos E Um Funeral, não acredito que exista alguém estúpido o bastante, mesmo que tenha visto só uma vez e há muito tempo não lembre quando, mas nas primeiras linhas até quem não conhece o filme saberá o momento em que foi declamado ( o que em idioma nerdês afetado é chamado de spoiler).
Nelson Ascher já tinha uma versão anterior na época do lançamento do filme, só que confessa que a realizou em poucas horas, agora tem-se uma versão nas suas palavras, mais cuidadosa. Numa googlada encontrei a primeira e posto depois a nova. Façam suas escolhas!

Funeral Blues - W. H. Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone,

prevent the dog from barking with a juicy bone,

silence the pianos and, with muffled drums,

bring out the coffin, let the mourners come.

Let airplanes circle moaning overhead

scribbling on the sky the message: he’s dead.

Put crepe-bows round the white necks of the public doves,

let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,

my working week, my Sunday rest,

my noon, my midnight, my talk, my song.

I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now, put out every one.

Pack up the moon, dismantle the sun.

Pull away the ocean and sweep up the wood.

For nothing now can ever come to any good.

Tradução de 1994.

Funeral Blues - W. H. Auden

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto – um laço no pescoço
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu

Era meu Norte, Sul, Leste, Oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana

É hora de apagar estrelas – são molestas,
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Tradução de 2008.

Blues Fúnebres - W. H. Auden

Detenham-se os relógios, cale o telefone,

jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,

façam silêncio os pianos e o tambor sancione

o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,

escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.

Pombas de luto ostentem crepe no pescoço

e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto

meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,

meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.

Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.

Guardem a lua; e o sol também foi o bastante.

Recolham logo o oceano e varram a floresta.

Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.


Atualizando:
Pensando neste post, o signatário do blog notou um desleixo, por que não incluir a cena onde é lido Funeral Blues em Quatro Casamentos E Um Funeral? Para compensar tal negligência, procurei um vídeo que tivesse legendas em português. Ei-lo.

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Now playing: Leonard Cohen - Ain't No Cure For Love
via FoxyTunes

sábado, 9 de agosto de 2008

Jogando para a platéia

Não importa o preço do barril de petróleo, o taxa de juros do Tesouro Americano ou a SELIC no Brasil, o índice BOVESPA; sempre foi um bom negócio ludibriar a platéia, e disso a cúpula da REDE RECORD sabe muito bem (e mais não falo, pelo risco de sofrer um processo).
Neste domingo a RECORD divulga que exibirá no TELA MÁXIMA, Mr Bean - Um Agente Muito Louco. Relevando essa cretinice do subtítulo, tem um outro problema, o Mr. Bean não está no filme. Ok, o filme é com seu intérprete, Rowan Atkinson, tem os mesmos trejeitos, só que desta vez o personagem, que dá nome ao filme no original (e inclusive ao DVD, pode procurar) é Johnny English.
O cartaz é tirado do site da emissora, que nem se deu o trabalho de editá-lo.
A RECORD que vem copiando tão descaradamente a GLOBO para alavancar sua audiência, como aluna aplicada repete a tradição da "Vênus Platinada" da manipulação de informação. Parabéns!!