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domingo, 6 de setembro de 2009

Inimigos Públicos (Resenha)


John Dillinger foi assassinado numa tocaia armada por agentes do FBI quando saia do Cine Biograph. Isto não é spoiler, é história! E qualquer um minimamente informado que Michael Mann a contaria em Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) sabe que ele se ateria aos fatos, com o rigor aos detalhes que vem caracterizando sua carreira.
Não há créditos de abertura em seus filmes, e Mann não apenas é entusiasta, mas um dos poucos que usam os recursos do cinema digital com autoridade: a câmera ágil mas não nervosa ou picotada com centenas e cansativos cortes, uma fotografia fascinante por minimalista. Tudo girando para criar uma experiência de imersão, hoje praticamente banida por deficiência dos realizadores, do cinema que não vê problemas de ser comercial, e que pode sim ser um produto refinado.
Uma constante que vem requintando a cada novo filme, o profissionalismo e ética no trabalho, seja ele qual for. Em Fogo Contra Fogo (Heat, 1995), Neil MacCuley (Robert DeNiro) dispensa um assecla por ser um desleixado, atira a esmo, imperdoável; o personagem de Al Pacino é descrito assim (cito de memória): "está no terceiro casamento, sabe o que isso significa, que nunca vai pra casa, que está sempre trabalhando, no escritório numa campana...". A família é sempre sacrificada, em Ali (Ali, 2001) é o fator (além da traição) para o divórcio Muhammed e Belina, que não queria que disputasse a luta com George Foreman no Zaire (hoje Congo). O policial Fanning (Mark Ruffalo) de Colateral (Collateral, 2004), ele próprio trabalhando na alta madrugada não hesita em ligar para um superior e arrastá-lo de casa para um necrotério.
Só que agora temos duas evoluções. Primeiro, se anteriormente os personagens estão sobrecarregados, estressados, pelo exigências da excelência absurda para o trabalho, John Dillinger se diverte com gosto, não confundir com displicência. Confirma-se no planejamento dos roubos de bancos, pelas roupas finas, a postura e fala ousada e levemente insolente. Tal excitação volta-se contra ele na metade da trama, quando descobre o que está ultrapassado, um novo tipo de criminoso começa a agir com a integração das quadrilhas por todo os Estados Unidos. Dillinger passa a ser um anátema por não só atrair atenção indesejada na caçada das forças policiais para prendê-lo quando, surpreso percebe que um balofo numa mesa com telefone anotando apostas na liga nacional de beisebol pode render muito mais que ele.
O segundo ponto revigorante é que mantendo a busca por um realismo, Mann também atiça o imaginário. O ar solene evoca O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), a violência os tradicionais filmes de gângster como Inimigo Público (Public Enemy, 1931), a ação dos homens da lei emula Os Intocáveis (The Untochables, 1987); e no ponto alto o próprio cinema; construtor de arquétipos, no seu personagem que entende o magnetismo do criminoso-heroi, não só usando a seu favor como medindo sua popularidade. Suas idas ao cinema não são só entretenimento, mas igualmente pesquisa de mercado. É patente sua sastifação.


Torna melhor o contraste com seus antagonistas um palpável, Melvin Purvis, por um sempre admirável Christian Bale; e outro imaterial no qual J. Edgar Hoover, (Billy Crudup) idealizador e diretor-chefe do FBI por quase 40 anos, acredita encarnar. Esse choque corroe o sisudo agente Purvis. Ele não acredita que está numa cruzada contra o crime ou em missão para fundar a primeira organização federal, que utiliza métodos modernos de investigação, é apenas um homem com um trabalho a fazer. Hoover sim, e quem conhece a biografia deste personagem sabe o quão perigosos homens assim podem ser. Fina ironia, e já antecipando o que viria na história americana, o filme não esconde os métodos deste ser sinistro; ao sair duma comissão no congresso, articula para difamar os senadores contrários as suas posições, ou sendo explícito que não importa através de quais meios, John Dillinger e associados deviam ser detidos.
Então de um lado temos um escroque com um distintivo e todo o peso da lei, e do outro um bandido galante e cavalheiro. Clichê? Só quando malfeito, Não é o caso aqui. Ainda melhor é que o segundo é que sem esforço angaria popularidade, o outro só pelo achaque.
Pena que no momento que escrevo esta resenha, Inimigos Públicos esteja saindo de cartaz nos cinemas, é desses filmes que perdem quando não vistos na tela grande. Seja pelos imensos close-ups que tosam os histrionismo e cacoetes forçados de qualquer atuação, e pelo magnífico ato final no cerco à Dillinger, culminando na última cena com sua amante, Billie Frechette (Marion Cotillard) sozinha no plano. Soberbo.
Eis logo abaixo a principal canção interpretada pela cantora Diana Krall, em pequena participação, depois o trailer. Se possível corra para próxima sessão disponível, ou esteja atento quanto chegar as locadoras, falando por mim, mal posso esperar para voltar a este microcosmo.




domingo, 23 de agosto de 2009

Hors Concours


É estranho, não estão entre aqueles que considero os melhores filmes já feitos, e nem sequer numa lista (Top 5? Com certeza não, talvez num 50) dos meus favoritos. Contundo tenho uma relação especial com as adaptações dos livros do inglês Nick Hornby Um Grande Garoto (About a Boy, 2002) e Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000).
Para ser sincero nunca me identifiquei tanto com um personagem quanto com o "garoto adulto" Marcus (Nicholas Hoult); o verdadeiro protagonista, não o "adulto garoto" Will, papel de Hugh Grant. Resumindo: Will é um sacana que graças à herança de direitos autorais de músicas do pai usa seu tempo da mais maneira frívola imaginável, um dia percebe que as mulheres mais vulneráveis são as divorciadas e com filhos; Marcus descobre isto, só que ainda assim empurra a mãe para o sujeito, porque pateticamente é o único adulto, além do pai ausente que conhece. Não se vê muitas comédias românticas tão naturalmente bem escritas e sem ser baixo astral, falar de temas pesados como solidão, incapacidade de levar uma vida social, tristeza, suicídio. Na metade Marcus nos dá a melhor definição de amor já feita em celulóide, "I wanna be with her more, I wanna be with her all the time, and I wanna tell her things I don't even tell you or mum. And I don't want her to have another boyfriend. I suppose if I could have all those things, I wouldn't really mind if I touched her or not".
Veja aqui uma cena:



Alta Fidelidade é mais simples, Rob Gordon (John Cusack) leva um fora da namorada. Ela é uma advogada que está subindo na carreira, ele um coitado na bancarrota, dono de uma loja de LP's de vinil (você pode medir a seriedade de qualquer articulista cultural pela maneira como aborda a "volta triunfante do vinil", se insistir nesta cascata, deixe o cara falando ou escrevendo para outros pobres perdidos). É o gatilho para rememorar os cinco maiores foras que levou da vida, as cinco melhores faixas de aberturas dos discos, as cinco quaisquer mais coisas que o momento suscitar.
Desta vez tenho em comum o mesmo olhar ou a falta dele de Rob sobre a vida, amor e música. A frase de abertura é genial: "O que veio primeiro? A música ou a tristeza? Todos preocupados com crianças com armas, ou vendo filmes violentos, e toda espécie de cultura da violência, que os cerca. Ninguém parece preocupado com garotos ouvindo milhares, verdadeiramente milhares de músicas sobre separações, rejeição, dor, tristeza e perda. Eu ouço pop music porque estou triste ou sou tristre porque ouço pop music?", um dilema shakesperiano.
Pausa para um top 5 de músicas para este post (criteriosamente não utilizo nenhuma música das trilhas sonoras dos filmes). Do quinto para o primeiro:











O fecho de ouro é o diretor Stephen Frears, seja lá o que faça não consigo achar ruim seu trabalho, e para minha sorte ele tem colaborado: Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundrette, 1985), Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988), Os Imorais (The Grifters,1990) (primeira parceiria com Cusack), Coisas Belas e Sujas (Dirty Pretty Things, 2002) e A Rainha (The Queen, 2006); ou os obscuros, modestos e controversos Heroi por Acidente (Hero, 1992), A Grande Família (The Snapper, 1993), Terra das Paixões (The Hi-Lo Country, 1998) e A Van (The Van, 1996).
Para quem chegou até aqui dois mimos. O primeiro tem que ser resgatado até a madrugada deste domingo para segunda, Alta Fidelidade será exibido na Sessão de Gala da REDE GLOBO. O outro é uma rara confidência pessoal do signatário. Há duas cenas que aconteceram muito semelhantes comigo. Para bem ou para o mal, nenhuma delas com Catherine Zeta-Jones (veja o filme, e veja que não estou sendo irônico aqui); para quem estiver disposto à caçada são dois diálogos, um de Rob com Ian "Ray" Raymond (Tim Robbins), o seguinte com Laura (Iben Hjejle).
Não estou envergonhado com esta confissão, com certeza você meu caro leitor também tem as suas.
Despeço-me com este trecho, ouça estas palavras de sabedoria:


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A involução das espécies do Soul

Se a evolução se dá aos saltos, a regressão será por reboladas.
No bicentenário do nascimento de Charles Darwin, eis aí mais uma prova de que a não aplicação de suas teorias resultam em catástrofe:



Os primeiros detratores foram fundamentalistas religiosos que inventaram o Design Inteligente. Os novos inimigos são os executivos de gravadoras que trouxeram à luz, o horror: Justin Timberlake. O homem do Soul, que aprendeu a dominar, com sofisticação as ferramentas da sua voz, para garantir a sobrevivência, posto ao lado dum macaco. Que espetáculo deprimente!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ao mestre com carinho!

Muitos ensaios discorrem sobre a importância das frases iniciais dum livro para arrebatar o leitor. Os mesmos argumentos podem ser transpostos para os filmes, o estranho é que demorou pouco mais de 50 anos da criação do cinema para alguém notar isto, e dá-lhe o refinamento, que ainda hoje não foi superado. Este homem foi americano Saul Bass. Formado pela escola de Design de Nova York, atendeu um pedido do diretor Otto Preminger, criar a abertura de Carmem Jones (idem, 1954). Os créditos, que de início, atendiam apenas exigências protocolares dos sindicatos, passaram a preâmbulo da história.
Carmem Jones é uma adaptação do musical da Broadway de mesmo nome, que por sua vez inspirado em Carmem, ópera de Bizet. Veja abaixo a solução empregada por Bass:



Com este trabalho, tornou-se um dos profissionais mais requisitados de Hollywood, e naturalmente, se deu ao luxo de trabalhar com os melhores. Em nova parceria com Preminger esteve no clássico Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959); um espetáculo ainda mais grandioso:



Bass foi ainda membro da equipe técnica responsável pelo que de melhor Alfred Hitchcock fez em sua carreira. Junto ao fotógrafo Robert Burks, o montador George Tomasini e o compositor Bernard Herrmann. Todos presentes em obras-primas como Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958):




e Psicose (Psycho, 1960):



É de Psicose umas das mais deliciosas querelas cinematográficas. Saul Bass sempre afirmou que a sequência do ataque no chuveiro, não apenas é idéia sua, como chegou a gravar um teste de câmeras com uma dublê, montou já na forma que se eternalizaria, e no fim das contas ele e Hitch co-dirigiram a cena com a atriz Janet Leigh. Hitchcock, por sua vez achava absurda a história, segundo ele, Bass apresentou uma versão, que rejeitou de cara, disse o que queria, detalhadamente, aprovou então os storyboards, e rodou tudo sozinho. Membros da filmagens corrobararam a narrativa de Bass, Leigh ficou com a de Hitchcock.
A partir dos anos 80, do século passado, o convites rarearam, e junto com a mulher, Elaine, voltou a Nova York dedicando-se a seu bensucedido estúdio de Design Industrial. Deve-se ao maior dos nerds do cinema, Martin Scorcese a volta triunfal do grande artista.
Com sua humildade e entusiasmo característicos, Scorcese convidou-lhe a fazer a abertura do filme que trabalhava na época: Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1989). O resultado? Os hilariantes créditos "cheirados" tal como uma carreira de cocaína:



Depois desse começo auspicioso, participou de todos os filmes do diretor ítalo-americano até sua morte em 1996. Sua presença de tão marcante que gerou herdeiros insuspeitos.
Seven - Os Setes Pecados Capitais (Se7en, 1995):



Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002):



Ou plágios descarados compare os créditos de A Época da Inoncência (The Age Of Innoncence, 1993) e os da minissérie da Rede Globo, Os Maias (idem, 2001):





O mesmo para os cartazes, pelos quais também foi revolucionário. Veja as "semelhanças" dos de Anatomia de um Crime e Clockers - Irmãos de Sangue (Clockers, 1995):


Proponho um tira-teima, escolha qual dos pôsteres para o mesmo filme, é mais belo, o da esquerda é de Saul Bass:


Encerro com os dois, na minha opinião pessoal, melhores trabalhos. Não consigo apontar um que seja superior ao outro.
Cassino (Casino, 1995)



Spartacus (idem, 1960)



NOTAS:
  1. A idéia para o post nasceu de uma conversa com meu amigo, Márcio Aguiar, sendo a ele, então dedicado.
  2. Por uma orientação tacanha, a Rede Globo vem sistematicamente cortando as aberturas dos filmes exibidos na emissora. Quanto as séries de TV, o corte é sumário, sempre usando uma edição mambembe. O caso mais revoltante é o de Simpsons, todas as aberturas de cada episódio do desenho animado são diferentes, e nunca, repito, nunca foram mostradas pelo canal. Claro que quando se trata de seus próprios produtos, o caso é diferente, vai ver que é porque são assinados pelo gênio da raça, Hans Donner.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Madeleine, Madeleine, Madeleine...

Jô Soares hoje é um zumbi, nada mais apropriado que esteja perdido, assombrando na madrugada. Como todo morto-vivo ele está atrás de miolos, comeu os dele primeiro e agora parte para devorar os nossos. Isso explica o porquê de tão preguiçoso, faz as chamadas do seu programa sentado, na introdução, praticamente limita-se a ler algo engraçadinho das correntes na internet, muito diferente quando fazia um legítimo e inspirado stand-up, repete as mesmas piadas e brincadeiras com o sexteto e o garçom, e nas entrevistas não parece se dar ao trabalho de pesquisar o convidado, passando a sensação de "vamos ver no que vai dar". E aquele elevador no cenário, serve para quê mesmo? Até fico feliz quando chega o horário de verão, durante o período o Programa do Jô termina uma hora mais cedo, e com sorte o Intercine programou um filme legal (e não tão porcamente cortado).
A salvação é quando aparece uma atração fora do padrão (não ajuda também a produção em sintonia como o chefe, agendado com tanta gente mixuruca). Tive uma surpresa ontem quando percebi que o programa ontem seria assim, e foi bem fortuito mesmo; pensava em dormir depois do Jornal da Globo e esperei, meio enfadado para ver quem estaria lá. E logo no começo abri um baita sorriso, era a fabulosa Madeleine Peyroux!!
Era só correr para o abraço, só que claro, abusaram da minha paciência, tive que atravessar dois blocos com uma entrevista qualquer nota com Andreia Beltrão junto a um moleque sem graça, divulgando um filme que ninguém vai ver. O gordo, no melhor estilo do seu ex-patrão, Sílvio Santos, constrangeu o coitado do menino, sem que ele percebesse. É capaz de se lembrar agradecido daquele momento.
Já com Madeleine perdeu-se um tempo enorme, e sem motivo, discutindo a eleição de Barack Obama nos EUA, noutro momento Jô Soares perguntou sobre influências de músicos ativistas no trabalho de Peyroux. Foi desconcertante pois ela não tem uma militância ativa e nem em suas canções percebe-se algo do tipo, na verdade é até bem reservada. Uma história divertida é que sua gravadora contratou um detetive particular para encontrá-la, pois ela tinha sumido na época da divulgação dum disco.
O que salvou a noite, foi Madeleine Peyroux, tímida mas simpática, com canjas de suas músicas. Em homenagem a ela, posto alguns vídeos das minhas canções favoritas. Para o leitor deste blog, que acha mais importante os posicionamentos políticos dela, o signatário informa que ela votou, pelo correio, em Obama, e está muito feliz por sua vitória.
Between the Bars:


Dance Me to The End of Love:


La Javainese:

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bombons com fel


Tenho uma brincadeira, um tanto cruel, com casais de amigos quando o nível de sacarina alcança níveis perigosos. Qualquer conversa comigo naturalmente se encaminha para cinema, encorajo então falarmos de comédias românticas, espero que digam seus filmes favoritos, na minha vez, declaro que Closer - Perto Demais é o filme sobre relacionamentos mais engraçado que já vi. Um tanto atordoados, eles aceitam a provocação, afinal em Closer temos mais diálogos espirituosos, e sim, é mais divertido que muitas das xaropadas que fazem sucesso por aí.
Na madrugada de domingo para segunda desta semana, por um feliz acaso acabei assistindo uma pequena gema cinematográfica de mesma lavra, Mentiras Sinceras. É dirigido e roteirizado por Jullian Fellowes, ganhador do Oscar de Roteiro Original por Assassinato Em Gosford Park. Se neste último ele oferece um estudo das classes da sociedade inglesa, desta vez ele ajusta as objetivas para um ambiente mais nuclear, o do casamento.
É um filme de atores, e o trio principal entrega performances magníficas, a começar por um de quem sou fã e já falei anteriormente aqui, Tom Wilkinson, acompanhado de Emily Watson, e Rupert Everett. Wilkinson e Watson, formam um casal bem-sucedido de Londres, uma boa casa no campo, tudo conforme o figurino, até o dia em que um elemento pertuba o acordo tácito de tranquilidade dos dois, Bill Bule (Rupert Everett), filho de um dos membros da aristocracia do interior inglês. Estou deliberadamente evitando dar mais detalhes sobre a trama, e peço ao leitor deste blog que faça a temeridade de dar um voto de confiança ao signatário, uma vez decidido a procurar o DVD na locadora, não leia a resenha. Predisponho-me a ser alugado por todo aquele que se sentiu logrado no fim das contas.
Explicada a razão do meu contorcionismo, permito-me a falar do momento final de uma cena primorosa, Anne Manning (Emily Watson), desabafa para o marido James (Tom Wilkinson), "eu não sei mais o que fazer, falhei em todos os testes que você me fez, e continuarei falhando naqueles que virão, e você sabe disso, por que continua me testando então", ele responde desolado, "eu não sei...". Outro acerto é a escolha do estilo de interpretação de Rupert Everett, seu personagem não faz a menor tentativa de estabelecer empatia com ninguém, muito menos com o espectador, a não ser num pedido gentil em sua última aparição. Torna o história mais poderosa e dá mote para outra sequência tocante.


O final de Mentiras Sinceras também me fez lembrar de outro ótimo filme (além do supra-citado Closer): O Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, tanto porque numa forma muito particular, e mantendo uma coerência com as escolhas e estado emocional dos personagens, há um final, por assim dizer, feliz; e a mensagem final de sempre nos surpreendemos cometendo os mesmos e patéticos erros, tal entendimento nos traz menos conforto do que consolo, mas é algo plenamente humano, muito humano.
Peço desculpas mas não encontrei um trailer com boa qualidade de imagem e nem legendado em português, eis logo abaixo:


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Unusual

O signatário deste blog é um mal leitor de poesia, é um tanto surpreendente quando faz esta revelação entre seus conhecidos, que presenciaram várias manifestação do seu amor aos livros. As razões para tal merecem ser exploradas, mas não agora.
Por isso, constrangido confesso uma solene ignorância da obra de Nelson Ascher, gente gabaritada o tem como um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, repasso o alto conceito, mas lembrando que não é meu. Tenho sim, muita admiração pelo ensaísta, que até alguns meses ocupava a PENSATA na segunda-feira da ILUSTRADA, caderno de cultura da FOLHA DE SÃO PAULO. Sentimento que só cresce a cada novo texto de seu substituto, Luís Felipe Pondé, comparar os textos de um e outro é como comparar a luz de uma lanterna e a do sol.
Minha, também é a inveja por Ascher ser tradutor de várias línguas; das corriqueiras, inglês, francês, italiano; as clássicas, latim e grego antigo; e mesmo exóticas como as eslavas. Sempre tive fascínio por esse personagem que é o tradutor, a erudição requerida, a sensibilidade para absorver a obra, a escolha das palavras, a tessitura do conjunto no trabalho finalizado.
O poema abaixo ficou conhecido por ser lido numa bela cena de Quatro Casamentos E Um Funeral, não acredito que exista alguém estúpido o bastante, mesmo que tenha visto só uma vez e há muito tempo não lembre quando, mas nas primeiras linhas até quem não conhece o filme saberá o momento em que foi declamado ( o que em idioma nerdês afetado é chamado de spoiler).
Nelson Ascher já tinha uma versão anterior na época do lançamento do filme, só que confessa que a realizou em poucas horas, agora tem-se uma versão nas suas palavras, mais cuidadosa. Numa googlada encontrei a primeira e posto depois a nova. Façam suas escolhas!

Funeral Blues - W. H. Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone,

prevent the dog from barking with a juicy bone,

silence the pianos and, with muffled drums,

bring out the coffin, let the mourners come.

Let airplanes circle moaning overhead

scribbling on the sky the message: he’s dead.

Put crepe-bows round the white necks of the public doves,

let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,

my working week, my Sunday rest,

my noon, my midnight, my talk, my song.

I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now, put out every one.

Pack up the moon, dismantle the sun.

Pull away the ocean and sweep up the wood.

For nothing now can ever come to any good.

Tradução de 1994.

Funeral Blues - W. H. Auden

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto – um laço no pescoço
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu

Era meu Norte, Sul, Leste, Oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana

É hora de apagar estrelas – são molestas,
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Tradução de 2008.

Blues Fúnebres - W. H. Auden

Detenham-se os relógios, cale o telefone,

jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,

façam silêncio os pianos e o tambor sancione

o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,

escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.

Pombas de luto ostentem crepe no pescoço

e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto

meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,

meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.

Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.

Guardem a lua; e o sol também foi o bastante.

Recolham logo o oceano e varram a floresta.

Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.


Atualizando:
Pensando neste post, o signatário do blog notou um desleixo, por que não incluir a cena onde é lido Funeral Blues em Quatro Casamentos E Um Funeral? Para compensar tal negligência, procurei um vídeo que tivesse legendas em português. Ei-lo.

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Now playing: Leonard Cohen - Ain't No Cure For Love
via FoxyTunes

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O mestre grilo responde

Pergunta do pupilo em vermelho:
E aí "Master of the nerds", concorda com este post? http://hitnarede.com/2008/11/shit-happens-musica-boa-clipe-ruim/

Respondo em azul:
Jovem gafanhoto (gosto da analogia, ainda mais que, na ponta do lápis, você é mais velho que eu), minha opinião é esta: acho uma asneira.
Penso que espera mais que uma sentença seca, se estou enganado, não precisa ler/ver o que segue. Repito a resposta acima só que mais elaborada.
Primeiro ponto, é polêmica vazia, e pior, vazia e preguiçosa, o sujeito só elencou 3 VÍDEOS para sua tese. Escrever um texto divertido exige esforço e bagagem cultural. Para comparação veja 2 listas que li recentemente (infelizmente, ambas em inglês), 18 cenas difíceis de ver, e os 50 maiores vilões da literatura. Neste último, poder-se-ia dizer que a escolha do primeiro lugar é óbvia, mas a fonte pinçada, revela a classe da seleção; enquanto na primeira lista, levou-se em conta não apenas a violência, mas o absurdo também, como a esnobada de Hugh Grant dá em Julia Roberts em Nothing Hill.
Segundo: para Cler Oliveira, uma música boa, dificilmente terá um clip bom, até é razoável a conclusão, só que o contexto correto é, mais raro ainda será que uma música ruim consiga um clip digno. E o conceito dele para música legal é para lá de largo, não? Take That!? Bon Jovi!!??
O U2 entrou na roda. Aí temos uma divergência frontal, para começo de conversa acho as capas do grupo muito acima da média, as de Achtung Baby! e Zooropa são espetaculares, se prestar atenção, é possível rastrear as influências dos álbuns pela arte estampada.


Não morro de amores pela a de All That You Can't Leave Behind, lembra mais um anúncio de revista do tipo Variety, mas é de inegável bom gosto!


Começando a falar sobre videoclips, na mesma linha de Stuck In A Moment (o qual gosto, registre-se), o clip com "lirismo" e "mensagem", o belo Walk On:


Que tal este em que Mary J. Blige canta One, acompanhada dos irlandeses. Ela e a banda, tocando num palco, filmado em preto-e-branco. Não precisa de mais nada!


E quanto a Window In The Skies, onde (mal) aparecem integrados na multidão, é absolutamente certeira na empatia com qualquer um que já se emocionou com música, qualquer música, e venhamos e convenhamos, juntando David Bowie, Frank Zappa, Vladimir Horowitz, Nat King Cole, Frank Sinatra, não tem como dar errado.


Nada mal para quem só dá bola fora, na ótica do Cler Oliveira.
E qual o problema como clip com historinha? Irreplaceable da Beyoncé leva zero em criatividade, e daí? Continua muito divertido.


O mesmo vale por exemplo, com James Morrison em Wonderful World.


O arremate final é com o Duo do qual nunca ouvi uma música ruim, e clip meia-boca, THE WHITE STRIPES.
Conquest:


Fell In Love With A Girl:


Concluindo com a soberba, Seven Nation Army:

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Vida inteligente na madrugada, sério!!

Qual meu filme favorito? Para mim esta pergunta tem um significado bem específico, não é o melhor que assisti (até a data? Laranja Mecânica), também não é a raridade cult que praticamente ninguém mais viu (A Estrada Perdida), ou ainda o título odiado pela crítica (A Praia), nem a bobagem trash que desperta um estranho orgulho em defendê-la (Re-Animator), Para mim é aquele que estabeleceu não apenas uma singularidade quase instantânea comigo, mas que ao longo dos anos esta conexão só fez aumentar. Assim não tenho só um filme favorito, são três.
É verdade que assiste-os nos meus "anos de formação", dos 13 aos 17, só que não me rendo ao clichê. Acho desolador pessoas que não mais consigam se sensibilizar, ou que se tornam reféns dos gostos e códigos de uma época supostamente idílica. Espero ter deixado claro acima que minhas escolhas não são preponderamente cerebrais, também o são, mas há o elemento visceral. E com alegria que digo ser razoável que mais quatro filmes ascenderam ao panteão, e todos foram lançados depois de extraídos meus dentes do siso. Na ordem: Amnésia (Memento), Os Incríveis, Sunshine - Alerta Solar e Ratatouille. Só que isto é conversa daqui para dez anos.
A presente tríade sagrada, é harmônicamente dividida em: aquilo que eu sou, aquilo que amo, minha visão de mundo. Este post é dedicado ao último, se o tema surgir falo dos outros dois (uma dica: o primeiro é polônes, e o segundo, inglês).
Nesta sexta-feira no CORUJÃO da REDE GLOBO exibirá MASH de Robert Altman. Duvido que comece antes das três da madrugada... Pena, é uma das melhores comédias do cinema, deve existir uma regra tácita na televisão aberta que bane qualquer coisa remotamente inteligente a clandestinidade.
O título é um acrónimo em inglês de Hospital Cirúgico-Médico Móvel do Exército, e ação se passa na Guerra da Coréia. À primeira vista, parece de mal-gosto uma comédia sardônica numa guerra, ainda mais num acampamento médico. Só que o comportamento hedonista dos integrantes, acaba sendo um dos mais poderosos líbelos pacifistas já feitos. Produzido no mesmo período da Guerra do Vietnam, produzia um ligação, consciente, que demonstrava que ao contrário da Segunda Guerra Mundial, que combateu um sistema facínora, as duas eram batalhas sem lógica, pelo que afinal os EUA se meteram nessas duas enrascadas?
Aqui se burila o que no futuro seria a marca de Robert Altman, o estilo multifacetado com várias histórias e personagens que se entrecruzam, consagrado em Nashville, e elevado ao estágio sublime em Short Cuts - Cenas da Vida.
Por isso o filme é uma impagável sucessão de micagens e pegadinhas. As melhores são dirigidas contra o major certinho interpretado por Robert Duvall e a enfermeira-chefe, que depois de juntos serem desmascarados, passa a ser chamada de Hot Lips (lábios quentes).
Outra é quando o dentista residente, que por ser extremamente bem dotado, hããã e não me refiro aos seus méritos intelectuais, ganha o apelido de Painless (sem-dor), se descobre impotente e decide que a vida não tem mais sentido decidindo suicidar-se. Seus companheiros ao saber disso, em vez de solidarizar-se com o homem do jeito contrito, fazem uma festa de despedida de aromba. O ponto alto é quando apresentam uma música especialmente composta para a ocasião: Suicide Is Painless.


Não se deixe enganar, é uma das películas das mais argutas. Possivelmente este seja o motivo para que Robert Altman, o diretor, desprezasse a série de TV baseada no filme, o conteúdo político foi esvaziado em detrimento da comédia (o clip no alto é uma montagem com cenas do seriado). Para o imenso desgosto de Altman, houve 11 temporadas na televisão. M*A*S*H*, a série é uma espécie de Roque Santeiro americano, seu último episódio foi a maior audiência da história da televisão de lá. Salvo engano, o recorde se mantém até hoje.
MASH no Corujão de hoje, isso sim é que é vida inteligente na madrugada!

Atualizado:
  1. A GLOBO não facilita em nada. Jô Soares voltou das férias ainda mais preguiçoso, e com convidados soporíferos, para completar na seqüência, no INTERCINE estava programado a bomba Halloween - Ressurreição. Tirei uma soneca esperando o CORUJÃO. Lamentavelmente quando acordei já tinha corrido uma hora de MASH. Ainda sim valeu a pena, continua irretocável, e com o tempo só melhora.
  2. Vai entender. A mesma classificação indicativa do Ministério da Justiça que tasca um selo vermelho (restrito para maiores de 16 anos) para HOUSE, o que o impede de ser exibido antes da 23 horas, por linguagem forte, insinuação sexual, morte e drogas; deu um verde (livre para qualquer público) para MASH. Taí mais um exemplo de que a censura é essencialmente tacanha, e de que o humor é a arma de inteligência suprema, subversivelmente enganando o sistema.
  3. Deu um pouco de trabalho, mas achei a cena no YouTube onde tocam Suicide Is Painless, repare que no comecinho eles reproduzem as mesmas marcações d'A Última Ceia" de Leonardo DaVinci.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Meu cachorro não tem nariz

Como muitos da minha geração, e falo de pessoas com seus 30 anos (e sem papai rico para conhecer em primeira mão numa viagem de férias pela Europa), conheci o Monty Python na Sessão Comédia que a REDE GLOBO apresentava na madrugadas de segunda-feira. A exibição era tão madrugada adentro, que mesmo empolgado vendo A Vida de Brian (e importante dizer que só mais tarde é que entendi a relevância dos Pythons para a comédia moderna, mesmo sem nenhum contexto os ingleses já à primeira vista mesmerizam), não resisti e fui dormir na primeira metade do filme. Só recentemente assisti na íntegra na Edição Imaculada, que é como é chamado o DVD duplo.
A Sessão Comédia também consagrou um dos grandes engodos na dublagem brasileira no Em Busca do Cálice Sagrado. São antológicas as aparições dos temíveis Cavaleiros que Dizem Ni. Aprisionados por eles, o Rei Arthur e Sir Bedevere devem trazer um "shrubberie" ao covil deles. No desespero, os dois torturaram uma velha dum vilarejo até que por acaso, aparece um shrubberneiro, que oferece seus serviços e salva o dia. Ingenuamente, não só eu, mais todos meus amigos lembrando do trecho, pensavamos que o mote era que "shrubberie" era uma palavra inventada, daí o terror dos personagens. E não é que dois anos atrás vendo o DVD, com som original e legendas, finalmente descubro que "shrubberie" significa "canteiro de jardim". Meio atônito, até usei o zoom no controle remoto para ver o cercadinho no canto da tela. A vida real é que é a verdadeira piada.
Pensei neste post sobre o Monty Python quando li sobre os 50 melhores sketches cômicos de todos os tempos, eleitos pelo site NERVE e o Independent Film Channel. Menos pela honestidade, e mais pelo senso de ridículo não vou comentar os escolhidos e posições, não tenho tarimba o suficiente para fazê-lo. Quem tem um mínimo de conhecimento de cinema, cita uma dezenas de atores emersos do Saturday Live Night, que os tenham vistos no programa é outra história. Lembro-me de ter lido algo sobre os Kids in the Hall, grupo canadense com várias menções na lista, ainda assim eram só umas linhas sobre filmes estrelados pela trupe. The State? Nunca ouvi falar.
Então eles poderiam atulhar o rol da maneira que melhor os convia, agora o primeiro lugar já tem dono: Monty Python's Flying Circus. A batalha agora é qual dos sketches alcançaram o Graal (perceberam? Graal? Monty Python? como sou engraçado)
O erigido foi O Papagaio Morto:


Sinceramente não se aplica a questão de contestar por injusto o resultado. Só apontar seu favorito. No meu caso é até fácil, sem medo de me render ao clichê, A Piada Mais Engraçada do Mundo:


Há quem resista John Cleese gritando "it's not funny"?
Ainda inspirado na Segunda Guerra Mundial, Sr. Hilter:


Impagável a caracterização de Michael Palin como Sr. Bimmler. É um tapa na cara desses humoristas de meia pataca, principalmente os do meu estado, que acham que basta um homem vestido de mulher para fazer graça
Mesmo um quadro que acho fraco, é acima da média. Quantos programas de humor citam o solene poema And Did Those Feet de William Blake, e continuam engraçados? Soa pomposo? Claro mais esse efeito é desejado e essa é toda diferença:


Sarro com uma instituição inglesa como Agatha Christie


Marcando a cultura pop, SPAM:


Antevendo o futuro, com programas de televisão sem nada de conteúdo recheados de gente louca para aparecer:


Um preferidos dos fãs:


Encerro com o final de A Vida de Brian:

domingo, 27 de abril de 2008

You got me begging you for mercy

A Inglaterra é um país sui generis. Pense no surgimento dos Punks que começou nas ilhas. O movimento defendia o "Do Yourself", mas observando mais de perto via-se que isto não significava faça de qualquer jeito. Os Sex Pistols eram anarquistas sim, mas com um empresário espertíssimo para o markenting, Malcom Mclaren, e com uma estilista oficial que milimetricamente escolhia onde estariam os rasgões e quanto desgastadas estariam as roupas, Viviane Westwood. Na superfície pregava o desleixo com músicas de três minutos com dois acordes, mas gerou um dos grupos mais sofisticados musicalmente que já existiram na história do Rock, The Clash, que no seu auge produziu um álbum triplo: Sandinista. Afora que Joe Strummer e Mick Jones são dois exemplos de roqueiros articulados.
Um resenhista sem criatividade começaria neste ponto a si perguntar sobre as propriedades mágicas da água que os ingleses bebem, como não é o caso entrego o ouro, primorosa educação (e claro, também o sistema de saúde universal ajuda um pouco) dedicado aos súditos de Sua Majestade. Até temos músicos que produzem música para descerebrados como o Iron Maiden mas gente como Bruce Dickson tem impecáveis credenciais acadêmicas.
São raros os casos em que os músicos britânicos não têm educação superior, não necessariamente graduação em música, caso dos integrantes do Queen, mas mesmo os "excluídos" há gente como David Bowie. Recentemente o guitarrista do Radiohead assombrou o mundo ao compor a impressionante trilha sonora do filme Sangue Negro, Jonny Greenwood estudou composição no vestuto Oxford Brookes University e há quatro anos é o compositor residente da BBC Concert Orchestra, na supracitada trilha usou com autoridade marcas da música erudita como atonalismo e dissonância. Antes que deixe batido, é o país do Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin.
O reflexo disso é uma imprensa especializada de primeira, não apenas no jornalões mais revistas segmentadas. Pense em quantas revistas de circulação nacional existem aqui no Brasil, de cabeça só lembro de duas: Bizz (sempre em vias de cancelamento) e Rolling Stone Brasil, mensais e de tiragem pífia. Na velha Albion essas publicações são semanais, vendem muito, bem escritas, e são influentes, caso do New Musical Express. Na verdade a disputa é tão acirrada que é voraz a caçada para o nova sensação, o hype no jargão da crítica. Existe muito exagero na consagração, como no caso aos Libertines, mas não nos méritos de quem é erigido: Franz Ferdinand, Klaxons, Arctic Monkeys.
A nova febre são cantoras de acento soul, que pipocam numa velocidade alucinante. É até engraçado pensar que Joss Stone é uma veterana com 3 discos na praça, e como tal, já tem que se preocupar em guinadas e reinvenções para manter-se em evidência. Causa estranheza que a outrora gatinha do Soul, que cantava descalça com aqueles vestidões floridos levementes hippies, surja agora de saltos altíssimos, piercing na barriga, sempre à mostra, cabelo tingido de vermelho. Mas é prudente maneirar na patrulha, Stone é jovem, linda e com dinheiro e Introducing Joss Stone tem boas faixas.
Na segunda onda estavam Lily Allen e a maravilhosa (e perdida) Amy Winehouse, que tomara Deus que o próximo disco da última não seja póstumo.
Agora na nova leva é a vez de Kate Nash, Adele e Duffy. Incrível é que todas são muito jovens, Adele tem só dezenove anos. Falando sobre Kate Nash o grande crítico da New Yorker, Sasha Frere-Jones aponta que estourou cedo demais e como suas letras são sempre confessionais é um problema, uma garota tem um universo muito restrito, o que cansa a audição de um disco ou show inteiro (para quem lê em inglês uma dica é ler seu blog no site da revista).
Nash estorou com a música Foundations:


O marcante nela é seu canto quase falado e estilo metralhadora, ouça aqui a cover de Flourescent Adolescent dos Arctic Monkeys:


Já Adele, ganhou a (injusta) pecha de clone de Amy Winehouse. Hehe! Ok vamos admitir esta hipótese por um momento. Ele já teria o mérito de copiar aquilo que já é bom, e consegue um grande resultado. Ficaria com a opinião do personagem de Orson Welles no filme Verdades e Mentiras defendendo que uma boa falsificação de uma obra de arte é tão válida quanto a original.
Esta é minha música favorita dela, Could Shoulder:


Há quem diga que essas cantoras são "inventadas" por produtores como Mark Ronson. Bem seguindo na linha que expus acima, se for isso mesmo, parabéns então a esses caras. São grandes ilusionistas e entregam entretenimento de primeira. Bem diferente dos picaretas aqui do Brasil como Rick Bonadio, que lançou os trambiques Rouge e CPM22.
Chegamos na minha nova diva, Duffy. Uma jovem galesa de 23 anos. Ouça a faixa título de seu CD, Rockferry:


Ela dominou as paradas com a fusão do soul e um quê de country de Mercy:

Aqui você pode ver o clip americano, prefiro o que postei acima veja os dois e faça sua escolha.
Agora a música que me fez minha sedição incondicional é Delayed Devotion. Sei até o momento exato. Nos versos: When I drop you boy/ You'll need another toy/ One that won't stand up for herself/ When I knock you down. Irresistível!! (recomendo que busque as letras de todos os vídeos, são muito boas, sem exceção)


Agora o que é bizarro é que pensando na letra de Delayed Devotion me dei conta que tem o mesmo mote de Baba Baby de Kelly Key. Hehe! Com a diferença crucial que Duffy canta de verdade, e sua música é linda.
Dá ou não dá uma inveja danada dos ingleses, eles: Joss Stone, Amy Winehouse, Kate Nash, Adele, Duffy. Nós Wanessa Camargo, Sandy, Liah, Marjoire Estiano, Perlla...
É impressão minha ou estou ouvindo: "You got me begging you for mercy".